O asfalto se abria
como o mar vermelho
e abaixo da sola
a cada passo
surgia um passáro

os carros paravam
em fila vertical
para que tu passasses
a braçadas
por esse umbral

a música que cortava
feito uma adága
separava os cogumelos do meu peito
e os passáros desciam
para respirar
nosso ar mais rarefeito

Vi a lua sorrir
e não era para mim
e não era pra você
e não era pra ninguém

Um homem ao meu lado
acabou de sair voando
era o mais infeliz dos homens
comprei um cigarro
pra servir de vela no meu aniversário
em dezembro
em dezembro
em dezembro

o céu resolveu beijar o mar
se derretia
ficaram verde
a floresta se avermelhou de vergonha
debaixo do meu pé
nasceram pelos

a pedra que me aconselhava
dessa vez não tinha conselhos
saiu do meio do caminho
entrou em desespero
e me deixou no vazio
que é olhar pro espelho







Vejo uma foto de Roma
e sinto uma saudade utópica
de eras de pedra
em que não vivi
e que não gostaria de ter vivido

Ouço sons delirantes
de épocas passadas
e sinto o coração dizer...
dizer que o que procuro está ali
mas ali não é um tempo
ali não é um lugar
é só mais um engano
uma linguagem
um sussurro
uma invenção
uma dessas belas invenções do coração

A vida tem procurado fantasias
o que chamam de sentido
o que chamo de utopia
Vai se entregando a toda sorte de novidades
tão novas quanto as construções de pedras
as mesmas pedras que já estavam aqui
antes
muito antes da vida existir

Ouço um sermão
tomo outra decisão
coleciono decisões impraticáveis
Espero um milagre
creio profundamente que estou errado
ainda assim espero um milagre
sei do caminho
mas ando cansado de tudo
cansado de mim
Por que andar caminho tão tortuoso
se eu poderia ser trasladado?

Ouço outros tipos de sermões
sermões estão todo tempo por ai
tentando nos cativar
nos vender algo
que seja uma ideia
sermões parecem-me hoje
ter esse único objetivo
vender

Grudado no alto da capela sistina
junto aos afrescos de Michelangelo
me pergunto
se as imagens majestosas que vejo são mais reais
Transportado não para onde queria
mas para o pináculo de um templo qualquer
antes que a tentação viesse
eu já havia me jogado
e na queda
os anjos não tiverem tempo de reagir
depois me disseram que me precipitei
e adorei a analogia
Para eles o milagre havia se concretizado
e se perguntavam admirados
como pode ainda estar vivo?
Invejo sua ingenuidade
gostaria de estar fazendo a mesma pergunta
e de bradar louvores ao milagre de sobreviver
mas eu sabia
e o conhecimento é a morte da ingenuidade
eu sabia que eu não havia sobrevivido
porque a morte não pode matar
quem já está morto
nem o mal tentar o mal

Respiro
e sinto as moléculas ancestrais
invadirem meus pulmões
o ar e meus pulmões se beijam
um beijo primordial
que parece me dizer
que já foram um em algum tempo
o ar no sangue
o sangue pelo corpo
parece mesmo que somente meu pensamento
não faz parte dessa simbiose
um alien
um estranho no corpo
na terra
um estranho com poder de viajar
para onde quiser
e mesmo assim se sente preso
incapaz
impotente
o pior dos fracos
o fraco que não se rende
não desiste
e por isso não aproveita as dádivas da fraqueza
quer se libertar pela força
não tem tempo pra compreender
que ele é a própria prisão

Olho para foto de Roma
e choro
um choro como o de Cristo sobre Jerusalém
Talvez um choro mais angustiado
ainda mais profundo
por também ser Roma
choro por mim






O parapeito
batia na minha cintura
Parecia me dizer:
Sou um protocolo,
não me importo se você pular

Lá embaixo
Uma fonte
Me parecia mais um convite
Com seu espelho d'água de 40cm de profundidade
Para dar impressão que amorteceria
mas era mentira

As pessoas gritavam
Não! Não pule!
Mas não saiam dali
E eu sabia
Sua esperança era ver uma tragédia

Eu não queria público
Não havia dúvidas
Me lembrei de uma torneira aberta
Fui pra casa
E morri mais uma vez