Vejo uma foto de Roma
e sinto uma saudade utópica
de eras de pedra
em que não vivi
e que não gostaria de ter vivido

Ouço sons delirantes
de épocas passadas
e sinto o coração dizer...
dizer que o que procuro está ali
mas ali não é um tempo
ali não é um lugar
é só mais um engano
uma linguagem
um sussurro
uma invenção
uma dessas belas invenções do coração

A vida tem procurado fantasias
o que chamam de sentido
o que chamo de utopia
Vai se entregando a toda sorte de novidades
tão novas quanto as construções de pedras
as mesmas pedras que já estavam aqui
antes
muito antes da vida existir

Ouço um sermão
tomo outra decisão
coleciono decisões impraticáveis
Espero um milagre
creio profundamente que estou errado
ainda assim espero um milagre
sei do caminho
mas ando cansado de tudo
cansado de mim
Por que andar caminho tão tortuoso
se eu poderia ser trasladado?

Ouço outros tipos de sermões
sermões estão todo tempo por ai
tentando nos cativar
nos vender algo
que seja uma ideia
sermões parecem-me hoje
ter esse único objetivo
vender

Grudado no alto da capela sistina
junto aos afrescos de Michelangelo
me pergunto
se as imagens majestosas que vejo são mais reais
Transportado não para onde queria
mas para o pináculo de um templo qualquer
antes que a tentação viesse
eu já havia me jogado
e na queda
os anjos não tiverem tempo de reagir
depois me disseram que me precipitei
e adorei a analogia
Para eles o milagre havia se concretizado
e se perguntavam admirados
como pode ainda estar vivo?
Invejo sua ingenuidade
gostaria de estar fazendo a mesma pergunta
e de bradar louvores ao milagre de sobreviver
mas eu sabia
e o conhecimento é a morte da ingenuidade
eu sabia que eu não havia sobrevivido
porque a morte não pode matar
quem já está morto
nem o mal tentar o mal

Respiro
e sinto as moléculas ancestrais
invadirem meus pulmões
o ar e meus pulmões se beijam
um beijo primordial
que parece me dizer
que já foram um em algum tempo
o ar no sangue
o sangue pelo corpo
parece mesmo que somente meu pensamento
não faz parte dessa simbiose
um alien
um estranho no corpo
na terra
um estranho com poder de viajar
para onde quiser
e mesmo assim se sente preso
incapaz
impotente
o pior dos fracos
o fraco que não se rende
não desiste
e por isso não aproveita as dádivas da fraqueza
quer se libertar pela força
não tem tempo pra compreender
que ele é a própria prisão

Olho para foto de Roma
e choro
um choro como o de Cristo sobre Jerusalém
Talvez um choro mais angustiado
ainda mais profundo
por também ser Roma
choro por mim






O parapeito
batia na minha cintura
Parecia me dizer:
Sou um protocolo,
não me importo se você pular

Lá embaixo
Uma fonte
Me parecia mais um convite
Com seu espelho d'água de 40cm de profundidade
Para dar impressão que amorteceria
mas era mentira

As pessoas gritavam
Não! Não pule!
Mas não saiam dali
E eu sabia
Sua esperança era ver uma tragédia

Eu não queria público
Não havia dúvidas
Me lembrei de uma torneira aberta
Fui pra casa
E morri mais uma vez




Sinto
quase não falo
os dias, as pessoas

Agosto se acaba
e acabam com ele
as mesmas coisas
que acabam todos os dias

A vida de muitos se foi
A vida de muitos começou
A vida de muitos mudou
Pra pior? Pra melhor?

A vida como sempre passou

Tenho sido
por um bom espaço de tempo
um observador
já quase não participo de debates
já quase não entro em desavenças
e discussões

Já não acho necessária minha opinião
na maioria dos temas da vida
da vida que não seja a minha

Tenho aprendido a amar
a amar às vezes a distância
Porque tenho muitos espinhos
Porque ainda sou frágil
porque respeito a mim
respeito o próximo

Que entendam
ou não
Que importa?
Quem se importa?
Por que se importar
com os detalhes da vida alheia?
Porque me importar com erros que me atribuem?
Erros que não cometi?
Erros que cometo
e que só dizem respeito a mim?

Agosto se vai
e com ele a certeza
que todos os dias são iguais

Apenas eu tenho mudado

Deixe eu falar
antes que agosto se vá
e se vá por inteiro





apagaram-se as luzes
mas não foi assim de repente
foi devagar
tão devagar
que ninguém percebeu a escuridão

Os olhos se encheram de lágrimas
mas não foi assim de repente
foi devagar
tão devagar
que ninguém as viu para enxugar

A cabeça quase explode de dor
mas não foi assim, deveras, de repente
foi devagar
tão devagar
que nem percebemos que a hora de dormir já havia passado

E agora que disseram
que as flores iam se abrir
não podemos ver

Apagaram se as luzes
e eu estava sozinho
Apagaram se as luzes
mas também já não sinto a fragrância das flores

Um disparate agora me sobrevêm
e já não sei para onde ir
e nem para onde vou

Sei que vou
e sinto que todos vamos
ainda que sem o cheiro das flores

E que flores são essas
que na minha ilusão
pensei me levar para onde eu queria?

Errei
errei em tudo
e quando pensei recomeçar
era somente para continuar de onde eu havia parado

E antes eu houvesse parado
E antes eu não ouvisse os vossos passos
Indo junto comigo para um caminho que já não sei

Porque apagaram se as luzes
e não foi assim tão de repente
hoje sei que não foi
ninguém viu
e nem percebeu que era chegada a escuridão





Ei cara!
Coitado de você!
Dizem ainda sobre livre arbítrio.
Que bobagem!

O que não falta é coragem
eu só não sei pra que...

A gente anda apressado
quase sempre cansado

A vida parece um correr para o ponto de ônibus
e lá chegando ficar esperando por mais de meia hora.

Eu sempre digo
as palavras não dizem a mesma coisa sempre
vejamos:
Felicidade
A pouco era ter um nome, uma família
Hoje, pelo que me parece
depende, dentre outras tantas coisas
de política e religião, ou não...

Amigo é outra dessas palavras que já não dizem...

Agora mesmo, não consigo fugir da analogia do ônibus
Você espera, ele vai te levar pra um lugar que você precisa
não exatamente um lugar que você quer
Uns ficam na porta, outras ainda andam muito pra chegar
As voltas que os ônibus dão
Inúteis pra você, ainda mais pra você que desce no final
essas voltas são necessárias pra quem vai ficando pelo caminho...

Ônibus!
A vida urbana e os ônibus
Tão parecidas e intrinsecamente ligadas...
Vai entender!

Na minha cidade é assim... a gente queria metro
mas temos que nos virar com os ônibus...
Afinal aqui o metro liga o nada a o lugar nenhum...
É o que dizem. Dizem também que não é um metro, é um trem.
Talvez seja o destino, talvez seja sacanagem mesmo.


Ei cara!
Coitado de você!
Dizem ainda sobre livre arbítrio.
Mas ainda desconfiam de você quando entra no ônibus...

Estou quase convencido que os ônibus estão aqui para nos dizer algo.
talvez uma mensagem oculta
uma mensagem de Deus!

18:30
Tá quase na hora
ele vem lotado...
não quero pensar nisso
Vou aproveitar algum canto qualquer
e ler um livro...