Eu luto
contra mim mesmo
todos os dias
e perco
conta mim mesmo
todos os dias

A cada passo à frente
incontáveis pra trás
a sensação de não sair do lugar
pra trás é uma dimensão
e sou prisioneiro
preso em mim mesmo

Ouço sua voz me chamar
aqui ela ecoa
ecos
assombração
paranoia
esquizofrenia
não sei mais se é sua voz
ou mesmo a minha

Ando calado
calado sobre o que importa
tento ser raso
razoável
mas quanto mais me calo
mas a voz cresce
(a sua ou a minha?)
fico com medo
paralisado

Aumenta o medo
e o medo aprofunda essa agonia
sua voz, com certeza
era o que eu queria
mas já não consigo saber
se é sua ou minha

Meus gritos mudos, internos
infernos
que queimam
como não queimariam
se eu ainda distinguisse
sua voz ou a minha

Leva-me pra fora
onde algo faça sentido
arranca-me de mim mesmo
dá-me lugar entre os perdedores
para que eu não ande mais sozinho
deixe-me desfrutar da sua vitória
já não me importo com títulos
vence a mim mesmo por mim
triunfa sobre mim
dê-me o gosto de perder uma última e definitiva vez
e descansar nos braços do vencedor
e ficarei em paz contigo
e ficarei em paz
em paz comigo






Antes que eu pudesse
ao menos sonhar
em estar com você
em correr pelos prados
e me deitar ao sol da manhã

Antes que eu soubesse
que havia por ai
tantas e tantas pessoas felizes
que já sonhavam
desde sempre sonhavam
em ser importantes

Eu
eu já me preocupava
e conhecia os sinais do céu
e o sabor das lágrimas
o cheiro da poeira
e a textura do chão

Meus calos nasceram comigo
são heranças de meus pais

A esperança conheci como ilusão
e mesmo assim ela me manteve
vivo
entre preces incessantes
que ainda hoje permanecem em meus lábios
fazem parte de mim
a fé
maria santíssima
rogai por vós que me leem
e me leem em oásis

Em São Paulo chove
uma chuva que nada resolve
São Pedro por que?
Por que chove em São Paulo?

seus cachorros tem mais que a gente
toda gente que morre
sedenta
a carne dos bichos
os mesmo que vos alimentam
ressecam em couro e osso
por entre nossos quintais

Quando fui para perto de vós
toda sua bonança me surgia como afronta
dai pra frente
nunca mais fui feliz

desumanizado
desfigurado
doente
um número

perto dos outros números
ainda era alguém
um alguém-número
sem valor
a esquerda
somados todos nós
não éramos
não somos
ou quase
quase...
muitos zeros valem mais quem um

você
volta comigo pra mim
me guia de volta ao eu
eu sinto que ainda moro aqui
me desperta do sono da ira
ira que me paralisou
me chama pelo nome
e beija minha alma seca
molha com húmus
mesmo que eu não possa mais ser feliz
me dê alegria
por uma noite
e se vá
não te demores aqui
pra que eu não te odeie também
ó meu amor
ó meu amor
ó amor

quero voltar a ser número
a ser nada
e ser consumido
consumido
sumindo
sumindo
e sumir
para sempre
e sempre
amém








Nem se piscou os olhos
e agosto se foi
e assim
tão de repente
o ano acabou

Entram os meses que me esqueço
meses que nunca me lembro
sete, oito, nove...doze!
Dezembro!

Amanhã, dia 19
quando agosto se findar
quem sabe ainda haja vida para viver
quem sabe ainda haja vida

Os ventos que agora cortam as peles
e que esfriam amores
sopraram muito antes
antes que agosto destilasse seus sabores

agora não sobram nem brumas
nem névoas
nem ar para respirar

apenas esses ventos
esses ventos que cortam
e cortam apenas

Viver nesse não tempo
pós agosto
é olhar para o espelho
e não ver o rosto

é não beber o vinho
se contentar com o mosto

é saber-se vivo
mesmo morto












O asfalto se abria
como o mar vermelho
e abaixo da sola
a cada passo
surgia um passáro

os carros paravam
em fila vertical
para que tu passasses
a braçadas
por esse umbral

a música que cortava
feito uma adága
separava os cogumelos do meu peito
e os passáros desciam
para respirar
nosso ar mais rarefeito

Vi a lua sorrir
e não era para mim
e não era pra você
e não era pra ninguém

Um homem ao meu lado
acabou de sair voando
era o mais infeliz dos homens
comprei um cigarro
pra servir de vela no meu aniversário
em dezembro
em dezembro
em dezembro

o céu resolveu beijar o mar
se derretia
ficaram verde
a floresta se avermelhou de vergonha
debaixo do meu pé
nasceram pelos

a pedra que me aconselhava
dessa vez não tinha conselhos
saiu do meio do caminho
entrou em desespero
e me deixou no vazio
que é olhar pro espelho







Vejo uma foto de Roma
e sinto uma saudade utópica
de eras de pedra
em que não vivi
e que não gostaria de ter vivido

Ouço sons delirantes
de épocas passadas
e sinto o coração dizer...
dizer que o que procuro está ali
mas ali não é um tempo
ali não é um lugar
é só mais um engano
uma linguagem
um sussurro
uma invenção
uma dessas belas invenções do coração

A vida tem procurado fantasias
o que chamam de sentido
o que chamo de utopia
Vai se entregando a toda sorte de novidades
tão novas quanto as construções de pedras
as mesmas pedras que já estavam aqui
antes
muito antes da vida existir

Ouço um sermão
tomo outra decisão
coleciono decisões impraticáveis
Espero um milagre
creio profundamente que estou errado
ainda assim espero um milagre
sei do caminho
mas ando cansado de tudo
cansado de mim
Por que andar caminho tão tortuoso
se eu poderia ser trasladado?

Ouço outros tipos de sermões
sermões estão todo tempo por ai
tentando nos cativar
nos vender algo
que seja uma ideia
sermões parecem-me hoje
ter esse único objetivo
vender

Grudado no alto da capela sistina
junto aos afrescos de Michelangelo
me pergunto
se as imagens majestosas que vejo são mais reais
Transportado não para onde queria
mas para o pináculo de um templo qualquer
antes que a tentação viesse
eu já havia me jogado
e na queda
os anjos não tiverem tempo de reagir
depois me disseram que me precipitei
e adorei a analogia
Para eles o milagre havia se concretizado
e se perguntavam admirados
como pode ainda estar vivo?
Invejo sua ingenuidade
gostaria de estar fazendo a mesma pergunta
e de bradar louvores ao milagre de sobreviver
mas eu sabia
e o conhecimento é a morte da ingenuidade
eu sabia que eu não havia sobrevivido
porque a morte não pode matar
quem já está morto
nem o mal tentar o mal

Respiro
e sinto as moléculas ancestrais
invadirem meus pulmões
o ar e meus pulmões se beijam
um beijo primordial
que parece me dizer
que já foram um em algum tempo
o ar no sangue
o sangue pelo corpo
parece mesmo que somente meu pensamento
não faz parte dessa simbiose
um alien
um estranho no corpo
na terra
um estranho com poder de viajar
para onde quiser
e mesmo assim se sente preso
incapaz
impotente
o pior dos fracos
o fraco que não se rende
não desiste
e por isso não aproveita as dádivas da fraqueza
quer se libertar pela força
não tem tempo pra compreender
que ele é a própria prisão

Olho para foto de Roma
e choro
um choro como o de Cristo sobre Jerusalém
Talvez um choro mais angustiado
ainda mais profundo
por também ser Roma
choro por mim






O parapeito
batia na minha cintura
Parecia me dizer:
Sou um protocolo,
não me importo se você pular

Lá embaixo
Uma fonte
Me parecia mais um convite
Com seu espelho d'água de 40cm de profundidade
Para dar impressão que amorteceria
mas era mentira

As pessoas gritavam
Não! Não pule!
Mas não saiam dali
E eu sabia
Sua esperança era ver uma tragédia

Eu não queria público
Não havia dúvidas
Me lembrei de uma torneira aberta
Fui pra casa
E morri mais uma vez