porque e pra que?
eu perguntava a ela
não a ela, mas a minha alma
pois nem adiantava
pedi-la calma
nada queria saber
e a fome dela era destrinchar
e assim se machucar ainda mais
ja não se pode voltar atrás
queria porque queria se condoer
e mais uma vez se deprimir
mas não! Pra que?
Esta tudo sempre
a um toque ou clique das mãos
e eu perguntando pra que
dilacerar mais o coração?
por isso
decidi que não!
não me entendam mal amigos
é que são muitas vozes aqui dentro
remoendo!
mas eu disse que não!
decidi doma-la
não ela, mas minha alma
chega de dores
nem dois, nem mais um trauma!
sem mais perguntas
sem mais
afinal repito
já não se pode voltar atrás

parece que está tudo tão claro
mas é a escuridão que nos fascina
não o nascer do sol
mas quando declina
a esperança é coisa de tolos
viva o dia
e quanto mais mau
melhor seria
queremos tudo direto
não ao silêncio!
Sim a ladainha!
é o regozijo do tempo da queda
como se não houvesse chão a espera
a alma já não é humana
somos carne, somos pó
somos lama
nessa podridão
onde só se ama quem nos ama
esse amor mentiroso que engana
que não espera
não suporta
acaba mesmo, termina na cama
nosso chiqueiro existêncial
somos lavagem um do outro
essa "delícia" que nos inflama
somos porcos
somos lixo
somos lama
deveras
a alma não é mais humana
mas eu ainda tenho esperança
que no meio de tantos desalmados
ainda exista um remanescente
não feito de coisas
feito de gente
e apenas gente
dos muros que guardam as grades
nasce uma flor
de um coração quebrado
nasce ainda o amor
do céu cinza de fumaça e dejetos
e que escondem o horizonte
brilha o sol
que ilumina no final da cidade
o monte
de um coração cansado
nasce ainda uma fonte
das águas turvas de poluição da lagoa
a vida que insiste
ainda ecoa
num coração pobre e plebeu
ainda existe uma coroa
seja ela de ouro
seja de espinhos
a necessidade é a mesma
carinho

sou um poeta louco
eu juro que nunca quis assim
no desespero que me cerca
encontro tempo e espaço
pra consolar quem espera em mim
mas e eu, o que sobra?
ou será que há sobras?
me gasto nos outros
e os outros se refazem de mim
passo por momentos egocêntricos
de poemas que só falam do meu eu
mas será que houveram outros
poemas em que falei de alguém?
quando falo dos outros
falo de mim também
é que ando sentindo saudades
desses pedaços que dei
se os terei de volta um dia...
sinceramente não sei
pareço mais um mosáico
ou melhor
um chão formado por cacos
o que ainda me dá alegria
é que de certa forma
mesmo a cada pedaço que falta
ainda existe harmonia
há quem diga que minha beleza
provém desse desenho
que se forma a cada dia
que encontro tempo no espaço e espaço no tempo
para tirar de mim mais uma fatia
e doar pra quem em prantos me diz que precisa
mas em dias como este
eu pareço um cachorrinho
que implora por uma migalha
queria que alguém ajuntasse
minh'alma que em pedaços se espalha
mas é só mais um dia
e como eu sempre digo
não existe "se"
e se existir...
desculpem-me, não acredito
é só mais um dia
e nesses dias
sou mesmo cacos
não me refaço
é que nesses dias
fico nu, pelado
tenho pouca paciência
sou mesmo cacos
desisto!
ou a vontade é de desistir
mas ainda tenho que arranjar forças
para tirar mais pedaços de mim
vai se aproximando o dia
em que nem mais cacos serei
acho que somente nesse dia
serei quem sou que sei
e desnudo daquilo que podia dar
me dê agora por inteiro
sem pedaços que tampam
o que é realmente verdadeiro
difícil, eu sei, vai ser
achar quem queira
alguém que foi desprovido da vaidade
desse mundo que nos rodeia
que ache beleza na nudez
dessa alma que devaneia
pois ainda está em cacos
e ainda me restam pedaços
que cobrem minha vida verdadeira

O que sobe de dentro
sim! de dentro de mim
são pulsões fortes, incontroláveis
incontadas
O que sobe de dentro de mim
é pavor, horror
de uma alma despedaçada
Na mente reflexos
do que o exterior não pode entender
só vislumbra em escombros, chagas
tragédias, epidemia
Na mente incógnita
caos, desordem
são o que se fazem de guia
A alma pressente o fim
senti o fim, finda
na desesperançosa esperança
de cessar sua dor
A alma confunde todas as coisas
não sabe mais de si mesma
achando que amor é rancor
O que sobe de dentro de mim
é um fogo que consome
é a morte, é a vida
é recomeço, é despedida
é a chance de salvar de novo
minha alma que vagava perdida

tempo, tempo
prisão
fonte inesgotável(?)
de tristeza e ilusão
ah! que já não vejo a hora de faltarmes
de deixarme pra trás
ah tempo, de ninguém amigo
a tempos que nada de ti espero mais
há um lugar (será lugar?)
onde o tempo se esgotou
será que um dia nele penetrou?
Esse corruptor
cruel e atroz assassino
dilacerando a cada dia
minha antiga alma de menino
e transformado o que era puro
me levando a um caminho
que sempre acaba num muro
há um lugar (e onde está, se é que há?)
onde dizem nunca houve tempo
não existe coisa sem fim
onde não existe a frase: não me lembro
onde o todo e o unico são uno
onde o conhecimento é pleno
mas a realidade (será mesmo que é?)
é feita de tempo
segundos, horas, meses, milenios
passado, futuro, presente
arrebatando tudo que há em mim
sou a cada momento mais orfão, mais carente
um perdedor cada vez mais eloquente
a ilusão desse mundo descrente
o proprio enfado de minha mente
mas o tempo não é feito de realidade
o tempo é ilusão
invenção
o cárcere
minha alma presa na sua propria criação
Deve haver um lugar (ó Deus tem de haver!)
onde haja descanso
mas enquanto isso o tempo passa
e onde passa arrasa
como uma enchente cíclica sem fim
a tempetstade, com raios, relampagos e trovão
que sempre reabastece
essa fonte inesgotável
de tristeza e ilusão.