
Eu morri hoje
Sucessivamente
morte e renascimento
e mesmo assim
eu nunca mais te encontrei
Morri todas as mortes
todas possíveis
e sempre ainda
ressurgi
fénix maldita que sou
queria de todas as formas partir
E todas as vezes que eu estive aqui
te procurei
na louca e incompreensível esperança
que você fosse a vida
mas me arriscando em te procurar
gerava mais uma despedida
pensando que desta vez não voltaria
saída
Eu fui em todos os mundos
todos os tempos e eras
peregrinei em todas as dimensões
indo de eternidade a eternidade
nem tempo
nem idade
puderam me fazer te achar
Aonde estás meu amor?
Morrestes a morte que eu não posso?
viajastes na carruagem de fogo?
fora tomada?
morrestes a morte da vida?
estás aonde não é mundo
nem tempo ou eternidade?
Amor meu
será que procuro quem não existe mais
será que um dia exististes?
fora transformada em outro alguém?
será que fostes quem sonhei?
será que fostes mesmo real?
Morro todas as mortes
e de angústia em angústia
não acho um fim
é o desepero
a certeza do muro
a falta da porta
abismo sem fundo
sempre mas, no entanto, embora...
nunca enfim...

quem é o maldito atrás do vidro cromado?
que se esconde de mim
e se revela assim, triste e inconformado?
quem é que sabe a verdade por trás desses olhos tristes?
quem é que viu a verdade?
na realidade, será que ela existe?
quem viu o flagelo da história que nunca foi contada?
quem estava lá pra assistir?
me vejo assim, escondendo, enterrando e a mantendo guardada
sabe-se lá, se algum dia alguém poderá a ouvir
existe alguém por ai?
queria que fosse em ti, que eu encontrasse razão de existir
o que esse maldito fez pra me separar de mim?
o reflexo que vejo no vidro
puro desequilíbrio, vestígios sempre do fim
queria que fosse você, que é toda a história
que estivesse sempre aqui
mas no final o que vi, os ponteiros, o relógio e as horas
passou-se o tempo, em anos a vida inteira?
e carrego pra sempre
e finalmente, os calafrios da hora derradeira
quem é que se esconde atrás do olhar do espelho?
que me disseca
e sem nenhuma pressa, me dá sempre o mesmo conselho
espera
espera
espera
que do alto virei para ti
descansa
descansa
descansa
farás parte do todo de mim
e por fim revelada a história
sem mágoas então saberás
terás, por fim a vitória
mas ando na terra, e continuo a perguntar:
por quanto tempo?
e isento, Ele continua a falar:
Espera... descansa...
em breve não haverá mais o tempo
viva por esse alento, e por fim também como herança
e me calo, como me calo agora
e depois, amanhã, eu não sei
Saberei? Apenas no tilintar da última hora

Se passaram muitos anos desde então
não cronológicos
mas metafóricos
mesmo assim reais
e tais
anos foram longos
ditongos
sem fim
Dentro de mim
envelheci
algumas
não apenas uma
vezes
morri
E ainda assim
com forças
e forcas
muitas vezes
renasci
De volta agora
nessa hora
ao passado
de humor
bem humorado
me sinto engraçado
e agraciado
por ver
que cada um de vocês
guardaram
e guardam ainda
entre voltas e vindas
um sentimento
quase que ciumento
pela nossa amizade
E é verdade
que a felicidade
essa nossa
não me deixa vê-los como estranhos
pois apesar dos anos
e de tudo mudado
ainda trago guardado
no peito
de cada um, seu jeito
e a certeza
que tudo isso
por mais incrível
e efêmero que pareça
ficará aqui dentro
e direi que me lembro
em mais uma década
que passe
sem empasse
que jamais me esquecerei
de nenhum
nenhum mesmo
de vocês
coração transborda
ele é uma horda
de coisas doces e amargas
ele sorri, ele chora
Deus nele mora
é que anda quebrantado
pelo seu próprio quebranto
e ante alegrias e prantos
tenta não perder o encanto
o coração transborda
está cheio de graça
dessa esperança que não passa
o rosto tenta
mas nem ele disfarça
a alegria que chega
e nele faz morada
alegria do Eterno
a nada comparada
e me faz ver o sol, o dia
deixa a vida deslumbrada
mesmo quando na pressa
mesmo quando parada
mesmo quando os olhos
se enchem d'água
A Ele declaro todo meu amor
Ao Eterno
Pai, amigo, filho, mãe, criador
que me liberta das cadeias do tempo
me enche de alento
e me leva como o vento
sem saber de onde vem
e nem para onde vai
meu coração assim
liberto
estará sempre por perto
daqueles que decidam amar
andará sempre disposto
a enxugar seu rosto
das lágrimas que venha a derramar
para no fim
libertos de vez por todas do tempo
não haja um só momento
nem forças, nem tormentos
que venham nos separar

tempo, tempo
prisão
fonte inesgotável(?)
de tristeza e ilusão
ah! que já não vejo a hora de faltarmes
de deixarme pra trás
ah tempo, de ninguém amigo
a tempos que nada de ti espero mais
há um lugar (será lugar?)
onde o tempo se esgotou
será que um dia nele penetrou?
Esse corruptor
cruel e atroz assassino
dilacerando a cada dia
minha antiga alma de menino
e transformado o que era puro
me levando a um caminho
que sempre acaba num muro
há um lugar (e onde está, se é que há?)
onde dizem nunca houve tempo
não existe coisa sem fim
onde não existe a frase: não me lembro
onde o todo e o unico são uno
onde o conhecimento é pleno
mas a realidade (será mesmo que é?)
é feita de tempo
segundos, horas, meses, milenios
passado, futuro, presente
arrebatando tudo que há em mim
sou a cada momento mais orfão, mais carente
um perdedor cada vez mais eloquente
a ilusão desse mundo descrente
o proprio enfado de minha mente
mas o tempo não é feito de realidade
o tempo é ilusão
invenção
o cárcere
minha alma presa na sua propria criação
Deve haver um lugar (ó Deus tem de haver!)
onde haja descanso
mas enquanto isso o tempo passa
e onde passa arrasa
como uma enchente cíclica sem fim
a tempetstade, com raios, relampagos e trovão
que sempre reabastece
essa fonte inesgotável
de tristeza e ilusão.