parece que está tudo tão claro
mas é a escuridão que nos fascina
não o nascer do sol
mas quando declina

a esperança é coisa de tolos
viva o dia
e quanto mais mau
melhor seria
queremos tudo direto
não ao silêncio!
Sim a ladainha!

é o regozijo do tempo da queda
como se não houvesse chão a espera

a alma já não é humana
somos carne, somos pó
somos lama
nessa podridão
onde só se ama quem nos ama

esse amor mentiroso que engana
que não espera
não suporta
acaba mesmo, termina na cama

nosso chiqueiro existêncial
somos lavagem um do outro
essa "delícia" que nos inflama
somos porcos
somos lixo
somos lama
deveras
a alma não é mais humana

mas eu ainda tenho esperança
que no meio de tantos desalmados
ainda exista um remanescente
não feito de coisas
feito de gente
e apenas gente

dos muros que guardam as grades
nasce uma flor

de um coração quebrado
nasce ainda o amor

do céu cinza de fumaça e dejetos
e que escondem o horizonte
brilha o sol
que ilumina no final da cidade
o monte

de um coração cansado
nasce ainda uma fonte

das águas turvas de poluição da lagoa
a vida que insiste
ainda ecoa

num coração pobre e plebeu
ainda existe uma coroa

seja ela de ouro
seja de espinhos
a necessidade é a mesma
carinho