E a vida
como um decomposto
vai perdendo o gosto

E a vida
como um desencanto
se afoga e se seca em pranto

E a vida
alguém ainda se importa?
diz-se ainda vida -morta-

A vida
que não para e corre
diz ainda que é vida... e morre

A vida
que não vive, existe
e corre, não para
parece que não, mas desiste
e algo que a empurra
insiste, persiste
é a Vida que é Vida
e que quer da vida
que não vive, existe
a fazer ressurgir
da perdição vir
a Voz que é Palavra ouvir
e que tira do nada o sentido
pedra perfeita, simetricamente esculpida
que é vida.






vem sempre alguém
pra bagunçar a vida da gente
pode ir assim, tão derrepente
ou pode ficar pra sempre

pode ser solução
mas o que me parece
é uma grande confusão

tem que pagar pra ver (tem ver pra crer)
era o que me diriam
é porque não dá pra prever
porque tem de ser assim, porque?
são perguntas sem respostas
e eu continuo aqui, ainda sem saber

Calma, é a palavra que urge
mas não combinam uma com a outra
é como um leão que ruge
aço inox
ferrugem

Escolhas
Aventura
lucidez?
loucura?

Prefiro ainda a surpresa
hoje a fome
amanhã farto de pão
prefiro mesmo a surpresa
do que a previsão

Mas sabe-se la o que é a vida?
um gráfico, um plano?
Não, a minha é sempre
acertos e enganos

Encontros, desencontros
reencontros e despedidas
essa é minha vida

por isso não se engane
não se aprece
não se perocupe
a vida continua a passar
mesmo que dela a gente não se ocupe
e o que será, será
mesmo que agora
a gente já não saiba por onde
nem como caminhar






Ai humanidade
quanto mais chega a idade
mais disfarçada fica a vaidade

É tudo mentira
E tudo me irrita

A verdade, que sempre o problema
é comigo mesmo
dava tudo
para estar no ermo

Acho que não tive crises
na adolescência
Agora que deveria ter me achado
não tenho um pingo de paciência

Talvez seja porque é sempre
o que a gente não quer
sempre o que a gente não quer
sempre o que der e vier

E minha vida vai assim
como esse poema
vai tecendo na poeira
vai ficando só sujeira
vou andando sempre na beira
sem saber onde é o fim
porque se está no meio ou termina
não importa, é sempre assim
sempre o que der
sempre o que vier





quando ele enfim descobriu
não era tarde demais
apesar de ja ter dito
a sentença: jamais

o sol não havia se apagado
e os dias continuavam a nascer
descobriu então
que havia ainda razão para ser

quando as manhãs nasceram
e ele ainda estava lá
descobriu que ainda havia motivo
e vontade para lutar

se encheu então de esperança
nunca mais disse que nunca mais
creu na ressurreição dos mortos
no eterno e não no "jaz"

sabia por si só
que nada havia acabado
mesmo parecendo morto
sepultado, enterrado

creu que tudo se fazia novo
que sempre era tempo para recomeçar
começava ali
a não mais reclamar

seguia desde então
um caminho cheio de novidade
recomeçando coisas não terminadas
ciente agora de sua capacidade

e terminando o que devia ser terminado
não tinha mais ressentimentos
se via como um novo homem
cheio de vida e sem desalentos

caminhava enfim
numa eterna contramão
contra um mundo de ambiguidades
preferiu viver pelo seu coração

que agora estava cheio de amor
cheio de esperança e de paz
sepultou a única coisa que devia ser sepulatada
sua antiga sentença: jamais



parece que está tudo tão claro
mas é a escuridão que nos fascina
não o nascer do sol
mas quando declina

a esperança é coisa de tolos
viva o dia
e quanto mais mau
melhor seria
queremos tudo direto
não ao silêncio!
Sim a ladainha!

é o regozijo do tempo da queda
como se não houvesse chão a espera

a alma já não é humana
somos carne, somos pó
somos lama
nessa podridão
onde só se ama quem nos ama

esse amor mentiroso que engana
que não espera
não suporta
acaba mesmo, termina na cama

nosso chiqueiro existêncial
somos lavagem um do outro
essa "delícia" que nos inflama
somos porcos
somos lixo
somos lama
deveras
a alma não é mais humana

mas eu ainda tenho esperança
que no meio de tantos desalmados
ainda exista um remanescente
não feito de coisas
feito de gente
e apenas gente

dos muros que guardam as grades
nasce uma flor

de um coração quebrado
nasce ainda o amor

do céu cinza de fumaça e dejetos
e que escondem o horizonte
brilha o sol
que ilumina no final da cidade
o monte

de um coração cansado
nasce ainda uma fonte

das águas turvas de poluição da lagoa
a vida que insiste
ainda ecoa

num coração pobre e plebeu
ainda existe uma coroa

seja ela de ouro
seja de espinhos
a necessidade é a mesma
carinho



Vai sorrindo a vida
e prosseguindo mais um dia
não sabe as marcas que deixa
nessa grande e dura via

Um dia quem sabe ela sinta
no coração os calos feitos
e mesmo triste e sorrindo
dando o melhor e não sendo perfeito
ache por esse caminho
alguém do meu jeito

Ó vida, tão bela, injusta
que não sabe escolher as estradas
que machuca quem mais te ama
e mexe em feridas não curadas
escolhendo sempre palavras erradas
destruindo sonhos em uma só tacada
enfiando estacas nas mãos desgastadas

Bem vida
companheira inseparável
eu confio que um dia acerte o caminho
o inimaginável
e as cicatrizes que ficaram em mim
sejam uma lembrança memorável
de um tempo sofrido e bem vivido
e que me levou ao esperado
o tempo ao seu lado



São diferentes formas
que formam uma canção
de um mundo tão igual
igualdade solidão

São diferentes credos
que criam um pesadelo
de uma igualdade desigual
inigualavel zelo

São diferentes desejos
que desenham um sonho lindo
de formas tão formais
fortalezas esculpindo

São diferentes mistérios
que nos falam sobre a morte
enigmas enigmáticos
de inestimavel porte

E são coisas abstratas
que explicam nossa vida
Em voltas me vejo voltando
em um caminho só de ida