
Eu morri hoje
Sucessivamente
morte e renascimento
e mesmo assim
eu nunca mais te encontrei
Morri todas as mortes
todas possíveis
e sempre ainda
ressurgi
fénix maldita que sou
queria de todas as formas partir
E todas as vezes que eu estive aqui
te procurei
na louca e incompreensível esperança
que você fosse a vida
mas me arriscando em te procurar
gerava mais uma despedida
pensando que desta vez não voltaria
saída
Eu fui em todos os mundos
todos os tempos e eras
peregrinei em todas as dimensões
indo de eternidade a eternidade
nem tempo
nem idade
puderam me fazer te achar
Aonde estás meu amor?
Morrestes a morte que eu não posso?
viajastes na carruagem de fogo?
fora tomada?
morrestes a morte da vida?
estás aonde não é mundo
nem tempo ou eternidade?
Amor meu
será que procuro quem não existe mais
será que um dia exististes?
fora transformada em outro alguém?
será que fostes quem sonhei?
será que fostes mesmo real?
Morro todas as mortes
e de angústia em angústia
não acho um fim
é o desepero
a certeza do muro
a falta da porta
abismo sem fundo
sempre mas, no entanto, embora...
nunca enfim...
qual o parâmetro de normal
quem decide
o que é estranho
o que é normal
o que é comum
pinga com limão
coca com rum
eu acho estranho que estranhem
qual enfim é a estranhesa?
todo dia café na mesa
ou sempre uma sobremesa?
quem decide o que é beleza?
o que é feiura?
não seria tudo isso loucura?
mas afinal, o que é loucura?
Acho em dias
todos idiotas
corredores em busca do vento
e eu em busca de alento
aumento ainda mais meu sofrimento
acabo eu correndo atrás do vento
sem lenço
sem documento
essas perguntas
na verdade são retóricas
não querem respostas
eu não iria querer saber as respostas
eu me sentiria um idiota
e é assim que me sinto
não minto
por ter proposto essas perguntas
é uma grande bagunça
eu queria uma só solução
mas a solução é a própria confusão
e chego derrepente a mais um final
sem ao menos entender o que queria dizer
seria este meu mal?
sem respostas me sinto bem
e amanhã, o que vem?
um feriado?
natal?
estamos em janeiro
falta ainda um ano inteiro
carnaval!
fevereiro
quintal
terreiro
e eu aqui no serviço
tenho ainda meu cigarro
e o chão como cinzeiro
Siga este caminho de dor
deixado no rosto
Siga este caminho
movido pelo amor
Siga este caminho
que apaga o semblante
e em um curto instante
espelha a morte
Siga este caminho triste
marcado nos olhos
Siga este caminho
que a tempos existe
Siga este caminho
que desfalece o corpo
que deixa quase morto
sem forças pra lutar
Siga este caminho
que as lágrimas
cravaram na face
e que nem serve de disfarce
para tentar te enganar
Siga este caminho
que desce dos olhos
que leva a boca
esse amargo gosto
que foi imposto
por palavras sem medidas
nesse caminho de dor
medido por amor

Então
não vamos falar de amor
tudo isso por uma mulher
vamos falar de futebol
política
mas também não vamos falar de religião
Vamos falar de coragem
de medos e neuroses
será que só serão se forem de amor?
Vamos nos calar
e assim descobrir
que por mais que tenhamos
agora não temos nada a falar
vamos conversar
sobre qualquer coisa
que se pareça com futilidade
falar sobre o universo
sobre sobre o clima
corrupção
doenças, curas, televisão
Me conte uma piada
me faça perguntas
me deixe entre a cruz e a espada
solte uma gargalhada
me fale do seu emprego
da sua escola, da sua casa
da sua família, dos seus amigos
da sua história
riscos,perigos
me fale de suas pintas
do seu umbigo
Me diga qualquer coisa
que não seja de amor
tudo menos paixão
de uma festa, do bolo
de um velório, caixão
em que padaria você compra pão
do trânsito, do ônibus
se seu carro precisa de revisão
me fale de tudo
so não me fale daquela menina
me fale de música
tropicalismo, bossa, clube da esquina
me fale de cravos, me fale de espinhas
Hoje um prédio caiu
você viu aquela construção?
me fale, ou se cale
só não diga
nem balbucie uma só palavra
nem um só refrão
sobre amor

Não sabemos o que estamos fazendo
mas afinal, quem sabe?
Sempre a procura do que não sabemos
tentando sempre matar a vontade
vontade de sempre estar a procura
Parece ser essa a sina
De quem em sinceridade quer se encontrar
De quem não se satisfaz com mentiras
E os caminhos vão se cruzando
em estradas nem sempre planas
e atalhos novos formando
Aumentando as vozes que teimam em não se calar
Acho que corremos o risco de ser muchileiros
a procura de um lar
Não sabendo que o lar é a própria viajem
Vai saber?!!
Ainda estamos a nos encontrar
Quer saber?
se não se acredita em destino
tudo pode sempre mudar


