quanto dessa desilusão ainda carrego
por becos que vago na vida
como um cego

a gente transforma isso tudo em vida
pra no final do beco descobrir
rua sem saída

e a imagem que não sai da cabeça
são desses tijolos e sua voz dizendo:
disso nunca se esqueça

e essa maldição ressoa como um eco
martelo que bate na mente
esse prego

e o silêncio vai se tornando em castigo
e a solidão que era boa
virando perigo

quanto da sua ausência ainda trago em mim
buraco negro de quem nada escapa
sem fundo, sem fim

e a gente transforma essa queda em diversão
se auto-enganando, esquecendo
que existe um chão

e essa certeza no fundo lateja
que o chão vai chegando, na esperança
que você lá esteja

por onde andas
nos momentos que vago por becos
por buracos que não acabam mais?
por onde andas
se me penso na frente
não vendo que estou sempre atrás?

onde está sua imagem
que me trazia alegria
pra me nortear nesse escuro?
Desisto!
é sempre a mesma resposta
no fim dessa via esse muro

e caminhando de volta
descubro o caminho que nunca passei
esperando como quem nunca espera
uma sentença num mundo sem lei



parece que está tudo tão claro
mas é a escuridão que nos fascina
não o nascer do sol
mas quando declina

a esperança é coisa de tolos
viva o dia
e quanto mais mau
melhor seria
queremos tudo direto
não ao silêncio!
Sim a ladainha!

é o regozijo do tempo da queda
como se não houvesse chão a espera

a alma já não é humana
somos carne, somos pó
somos lama
nessa podridão
onde só se ama quem nos ama

esse amor mentiroso que engana
que não espera
não suporta
acaba mesmo, termina na cama

nosso chiqueiro existêncial
somos lavagem um do outro
essa "delícia" que nos inflama
somos porcos
somos lixo
somos lama
deveras
a alma não é mais humana

mas eu ainda tenho esperança
que no meio de tantos desalmados
ainda exista um remanescente
não feito de coisas
feito de gente
e apenas gente

dos muros que guardam as grades
nasce uma flor

de um coração quebrado
nasce ainda o amor

do céu cinza de fumaça e dejetos
e que escondem o horizonte
brilha o sol
que ilumina no final da cidade
o monte

de um coração cansado
nasce ainda uma fonte

das águas turvas de poluição da lagoa
a vida que insiste
ainda ecoa

num coração pobre e plebeu
ainda existe uma coroa

seja ela de ouro
seja de espinhos
a necessidade é a mesma
carinho



o sol que entra pela janela
as flores que crescem no concreto
as pessoas que vivem no deserto
ainda são as fontes da esperança
são como sorrisos de criança

o cantar do galo na cidade
os latidos dos cachorros pela madrugada
os gatos que brincam nos telhados
me dão a singela impressão
que ainda pode haver canção
canção que não fuja dessa simplicidade

o coração inquieto no peito
de alguma forma de saudade
me faz crer
que ainda existe vida na cidade

é que sou desses tipos estranhos
que se impressionam com futilidades
me interessa muito mais
um sorriso do que a brutalidade
o suor do que a facilidade

é que ando desacreditado
de tudo que me fizeram crer
casa-carro-dinheiro
mulheres, o mundo inteiro!

é que tenho tido contentamento
naquilo que é desprezado
os pobres-excluidos-viciados
e é assim que me sinto
e me sinto muito bem-obrigado

é que tudo anda perdendo o valor
se valor um dia tiveram
ando como quem anda pelo tempo
procurando como quem procura alento
mas encontra sempre vento

o cachorro, o gato, a flor, o sol
são a prova que nem tudo está perdido
e a Deus eu faço esse pedido:
que eu possa sempre me encontrar arrependido
já não me importo de ser esquecido
se para alguns sou querido
mesmo mal compreendido

que ele me faça andar
não como quem anda no tempo
mas com o pé e alma na eternidade
para ver se ainda posso levar alguns a crerem
que existe um pouco de vida na cidade





Ao ir embora
não feche as portas................Por todas estradas tortas
e nem olhe prá trás

Ao ir dormir
não lembre de nós..................Por todas as horas a sós
não lembre de mim

Feche os seus olhos
lembre-se existe algo..............Por mais incrível que pareça
não se esqueça

Mundo novo
mundo velho
se renova a cada manhã.............E mesmo que seja ilusão
as vezes não acompanho.................tenho conhecido
seu rítmo, e por isso
pareço perdido

Ao voltar, não
não olhe pra baixo.................Em tudo se desculpe
e também não se preocupe

Nada será igual
e estranhamente fico feliz
por isso se renova.................E agora será sempre assim
e nunca poderá existir................vida nova assumiu
O que era eterno o Eterno
destruiu



sou um poeta louco
eu juro que nunca quis assim
no desespero que me cerca
encontro tempo e espaço
pra consolar quem espera em mim

mas e eu, o que sobra?
ou será que há sobras?
me gasto nos outros
e os outros se refazem de mim

passo por momentos egocêntricos
de poemas que só falam do meu eu
mas será que houveram outros
poemas em que falei de alguém?
quando falo dos outros
falo de mim também

é que ando sentindo saudades
desses pedaços que dei
se os terei de volta um dia...
sinceramente não sei

pareço mais um mosáico
ou melhor
um chão formado por cacos

o que ainda me dá alegria
é que de certa forma
mesmo a cada pedaço que falta
ainda existe harmonia

há quem diga que minha beleza
provém desse desenho
que se forma a cada dia
que encontro tempo no espaço e espaço no tempo
para tirar de mim mais uma fatia
e doar pra quem em prantos me diz que precisa

mas em dias como este
eu pareço um cachorrinho
que implora por uma migalha
queria que alguém ajuntasse
minh'alma que em pedaços se espalha

mas é só mais um dia
e como eu sempre digo
não existe "se"
e se existir...
desculpem-me, não acredito

é só mais um dia
e nesses dias
sou mesmo cacos
não me refaço

é que nesses dias
fico nu, pelado
tenho pouca paciência
sou mesmo cacos

desisto!
ou a vontade é de desistir
mas ainda tenho que arranjar forças
para tirar mais pedaços de mim

vai se aproximando o dia
em que nem mais cacos serei
acho que somente nesse dia
serei quem sou que sei

e desnudo daquilo que podia dar
me dê agora por inteiro
sem pedaços que tampam
o que é realmente verdadeiro

difícil, eu sei, vai ser
achar quem queira
alguém que foi desprovido da vaidade
desse mundo que nos rodeia
que ache beleza na nudez
dessa alma que devaneia
pois ainda está em cacos
e ainda me restam pedaços
que cobrem minha vida verdadeira



eu queria explodir
e consumir num incêndio
eterno dentro de mim

que fosse fogo por fogo
ardendo aqui dentro
eterno e sem fim

mas do lado de fora
o gelo consome
nenhuma fagulha
que queime um capim

nenhuma lareira
nem fósforo
nem vela
é só vento que corta
é tão frio assim

oxalá esse poema fosse
coquetel molotov
incendiário
que te queimasse
como queima em mim

talvez assim sairia
desse casulo de gelo
e de amar tanto o espelho
e não procurasse em meu eu
pedaços inteiros de ti

e voltasse pra casa correndo
como menino pequeno
que morre de medo
sabendo que seu lugar é aqui

e parasse de ter alegria
no liquido que escorre do peito
da cor de carmim

essa lava de hemoglobina
que sai da minha bomba, turbina
e só serve pra te dirvetir

eu queria explodir por inteiro
e derreter todo gelo
que me separa de ti

esse vulcão que sou tão dormente
que revolve em fúria ardente
aqui dentro de mim

talvez mais um ou dois terremotos
que me abalem por inteiro
faça jorrar tanta fúria
que é esse amor que guardo por ti

e do gelo só fique a memória
e que no fim dessa história
a gente seja feliz