A dor é sempre única
Ninguém as sabe nem saberá
Ninguém pode dizer que sabe a de outrém
Ninguém, sim, ninguém

Me perdoem a intromissão as vezes passional
Me perdoem o veredicto sempre irracional

Ninguém pode dizer que já as viveu
Que já as passou
É única sempre a solidão, é único o sofrimento
É único o lamento

Não me levem por consideração as vezes que intervi
Não levem em conta o que não vivi

O amor tambem é sempre único
Não me creiam se dizer que o sei
É tão único quanto a dor
Não me ouçam quando digo sobre amor

Me absolvam por dizer por vezes que o sei
Não me condenem pelas torpes palavras que falei

Amigos
A vocês dedico esse tributo como apelação
Como mera e singela petição
Que denuncia meus erros e implora seu perdão

Que me ouçam daqui pra frente
Tão e somente em minhas proprias lamentações
Pois pobre que sou
Quem conheceu ou conhecerá os corações?

Que me consolem com seu choro irmão
Ou com silêncio reverente
Que me poupem das palavras
Que me poupem o coração
Caminhem comigo
Dadas as mãos
Que olhares falem mais
Que suspiros digam tudo
E que em meus delirios se façam mudos

É minha súplica
E que para ela não haja aqui e nem em nenhum lugar réplicas





Meus olhos, estranho
andam me pregando peças
Logo eles em quem tanto confiava
me fazem mais essa

Minhas pernas, estranho
me levam para outros lugares
Logo elas que eram minha firmeza
me deixam perdido entre outros milhares

Minha boca, estranho
nem diz mais o que quero
nem sente mais o teu gosto
nem recebe o que espero (teu beijo)

Minhas mãos, estranho
não sabem mais o que pegam
Logo elas que pintaram e tocaram teu rosto
nem sentem os espinhos que a tempos carregam

Meu amor, quem diria
não sei se ainda o tenho
envelheceu prematuro, em poucos longos dias
nem guarda mais os desenhos
que a vida outrora ensina
nem sabe mais se é amor
lágrima que dos olhos rumina
que se confunde com dor
que se afoga em rancor




quero tudo que é pesado
tudo que é sujo e putrefato
toda a escória
todo o horror da história
todas as mortes desnecessárias
todo ser vacilante
todo perdido e errante
todo vexame sem causa
todas as causas inúteis

quero as almas penadas
os lugares mal-assombrados
os pántanos
os brejos
os lugarejos
o escuro das cavernas
os desejos não realizados
as multidões
os esgotos
os poços sem água

Quero a sede
a fome
as angústias
o pânico

quero discórdia
facção
quero desconcertos
desacertos
decepção

quero o frio
o desgosto
o desassossego
as fobias
o medo

quero a fornalha
a espada
a adága
a navalha

quero o sorriso desconcertante
quero-o mais que as lágrimas
quero sentir gastura
de todo som irritante

quero pesadelos
e te-los bem acordado
quero toda dor
e des-zelo
ciúmes
maltratos

quero o vácuo
o vazio
as profundezas dos mares
as margens assoriada dos rios


nenhuma subserviência
maldade
quero inexistência