E a vida
como um decomposto
vai perdendo o gosto

E a vida
como um desencanto
se afoga e se seca em pranto

E a vida
alguém ainda se importa?
diz-se ainda vida -morta-

A vida
que não para e corre
diz ainda que é vida... e morre

A vida
que não vive, existe
e corre, não para
parece que não, mas desiste
e algo que a empurra
insiste, persiste
é a Vida que é Vida
e que quer da vida
que não vive, existe
a fazer ressurgir
da perdição vir
a Voz que é Palavra ouvir
e que tira do nada o sentido
pedra perfeita, simetricamente esculpida
que é vida.




Quantos seres humanos sós
e a sós eu sou mais um
não existe nada que me preencha
não existe nada
e do nada estou cheio


Que egoísmo!
E quanta ingratidão minha
mas na hora em que preciso
me desculpem meus amigos
estou só

Sou um eterno repetidor
que sempre repete
e vive de repetir-dor

Queria no agora ser nada
desse nada que me enche
não deixar saudades ou lembranças
queria agora ser nada
não ter saudades ou lembranças

Mas sou um repetidor

Que a saudade me invadisse
me dominasse
e que disso nascesse uma história
e que nela existisse amor
para que eu não mais repetisse esse caminho
nessa existência de dor

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Existe um medo
perder o controle
quem quer ser livre?

Persiste o medo
total controle
de quem? de si?

Não!
E quantas vezes
já o disse aqui!
Não!
Nem controle
nem liberdade
no máximo
pelos dois ansiedade
e assim caminha a humanidade
de vaidade a vaidade

E o medo?
Ah! Ele a gente esconde
nessa brutal e insana
vida de comparações
limando assim, a cada dia
o amor dos nossos corações







Sim cantarei
cantarei a fadiga de viver
louvores aos limites da vida
as tão cansáveis obrigações
aos sonhos impostos
a vã correria que nos submetemos

Júbilos estrondosos
às casa, aos carros
e aos empregos
às lindas mulheres
que temos que conquistar
e a todas as coisas de marca
sem as quais não somos

Às nossa faculdades
cursos e viagens
ao nosso gosto musical apurado
computadores, celulares
a nossa imensa lista de amigos
ao nosso bairro

E então rouco e exausto
suspirarei pela inutilidade do meu canto
e pela nossa infeliz felicidade
por ter ganhado o mundo
e perdido a alma