Eu sempre pensei
Que a visão fosse
de todos
o mais especial dos sentidos

Até ontem
Até ouvir seu coração

É estranho meu amor
o mundo anda tão ruim
a maldade tem tomado conta
e a tristeza assolado tantas vidas
e quantas outras perdidas

É estranho meu amor
mas estou tão feliz
desde que você surgiu
tudo anda diferente
mesmo o tempo
que andava implacável
suavizou

Ando bobo
meio sem palavras
repetindo frases feitas

Foi em agosto
que te ouvi e vi pela primeira vez
uma imagem cheia de ruídos
e mesmo assim
nunca vi nada mais bonito
aquele som
a soar
infinitamente agora
dentro do meu
o seu coração

Eu sei
meu amor
que você ainda
está sendo formado
substância, a pouco, ainda informe
e mesmo assim
já não sou mais o mesmo
desde que ouvi de você
ainda mais
depois de te ouvir

Vem
me transforma
faz de mim
o que em mim
sempre esteve latente
mesmo quando dormente
faz de mim pai
no presente
meu presente
coaduna
como luz
Luna


Morreu!
Mas não uma morte qualquer
Morreu sufocando
morreu sufocado

Morte
mais indecente que a severina
acreditou no presidente
tomou cloroquina e o ar acabou
antes da cartela de ivermectina

Morreu sufocando
um já sufocado
hospital lotado
agonizou no corredor
antes mesmo de ser entubado
na contramão da vida
atrapalhando o sábado

E eu, que ainda respiro
morri mais um pouco
e me chamam de louco
porque morro
e morro
a cada um que morre
que morre sufocando
que morre sufocado


Jaquatirica
Jaquatirica
como um gato
vai e fica


Jaquatirica
corre
foge
ninguém liga


É do Brasil
não é jaguar
é mais cômico
tírica

Mas é selvagem
não é gato
não é onça
não é tamanduá
nem preguiça


Jaquatirica
nem acordado
nem dormindo
me belisca!


Jaquatirica
tenho medo
e quem tem medo
não se arrisca


Jaquatirica
pelo lago
pela fonte
pela bica


Jaquatirica
que espreita
que espia
que intriga


Jaquatirica
não se vá
nem pelo fogo
e me diga


Jaquatirica
onde estás
pronde vai
que me instigas?


Jaquatirica
ninguém liga
Jaquatirica
pela volta
pela ida
o que importa
é que se estás
ainda há a vida





Hoje é dia 18
e sinto um desgosto
com a vida

Procuro fugas
mas minhas rugas
me dizem não haver mais saída

A gente nasce
com a difícil tarefa de entender o mundo
e acaba por se viciar em cigarro

Tenho pena de quem não fuma
e mais pena de quem ainda fuma

Eu nunca tive dinheiro para comprar um carro
e amo carros
talvez se eu tivesse, amasse cavalos

Hoje é dia 18
e um desgosto
devasta a alma

Detesto fugas
e minhas rugas
me lembram meus traumas

A gente nasce com a difícil tarefa de encontrar um amor
e quando é encontrado por ele
acaba se viciando em si

Tenho pena de quem não se ama
e mais pena ainda de mim

Eu nunca tive um desespero que me levasse a morte
Talvez se tivesse, amasse mais a vida

Hoje é dia 18
amanhã 19
e ch-oro
pra que de alguma forma
algo que ainda não envelheceu
se renove







Estou fazendo
o que deveria ter feito
há dez anos atrás
mas há dez anos
eu não sabia o que fazer

Estou amando
como sempre
sempre deveria ter amado
mesmo que eu não soubesse
como amar
no passado

E hoje não posso ser
o que sonhei para mim
e se hoje eu pudesse
não seria assim

Estou contente
que meus planos
deram errado
mesmo que eu nunca
os tenha planejado

Estou contente
mesmo que tenha decepcionado
meu eu do passado
Estou saudoso
mas alegre, contente
fazendo o que devia
há dez anos
no presente


Não existe fim premeditado
Quando se sabe do fim
é porque o fim
em alguma hora
chegou de surpresa

O fim é sempre como algo derramado
um copo quebrado
no susto de um gesto desatento

As lágrimas vem
para quem já havia acabado
Porque a surpresa paralisa
e no espanto não há choro

O choro vem após o fim ser decretado
mas vivido antes
bem antes

Lágrimas são como chuva
que regam o deserto do fim

O realista sofre menos
Sofre à prestação
Foi pego pelo fim em algum momento
mas parcelou a dor
viveu o luto
mesmo quando ainda junto
Viu o paciente partir já em estado terminal
Teve tempo de se despedir

O esperançoso sempre é pego no repente
Como uma bala perdida
um atropelamento
Um enfarto fulminante em um jovem
Cai no espanto
Entra no limbo da perplexidade
Atónito
Sem movimentos
Paralisado

As lágrimas do realista são como doce chuva
São da despedida do velho avô
que se foi de velhice

Os olhos secos e petrificados do esperançoso
onde rola uma única lágrima
que é como uma mensagem
um broto novo em árvore caída
só pra lembrar que ali existe vida

Certo é
que decorrido o tempo necessário
o choro estoure como uma barragem amontante
contida, transbordante de dejetos
mas ninguém vê
e quem morre
ela
o derradeiro
sobrevivente
Esperança