Estou fazendo
o que deveria ter feito
há dez anos atrás
mas há dez anos
eu não sabia o que fazer

Estou amando
como sempre
sempre deveria ter amado
mesmo que eu não soubesse
como amar
no passado

E hoje não posso ser
o que sonhei para mim
e se hoje eu pudesse
não seria assim

Estou contente
que meus planos
deram errado
mesmo que eu nunca
os tenha planejado

Estou contente
mesmo que tenha decepcionado
meu eu do passado
Estou saudoso
mas alegre, contente
fazendo o que devia
há dez anos
no presente


Não existe fim premeditado
Quando se sabe do fim
é porque o fim
em alguma hora
chegou de surpresa

O fim é sempre como algo derramado
um copo quebrado
no susto de um gesto desatento

As lágrimas vem
para quem já havia acabado
Porque a surpresa paralisa
e no espanto não há choro

O choro vem após o fim ser decretado
mas vivido antes
bem antes

Lágrimas são como chuva
que regam o deserto do fim

O realista sofre menos
Sofre à prestação
Foi pego pelo fim em algum momento
mas parcelou a dor
viveu o luto
mesmo quando ainda junto
Viu o paciente partir já em estado terminal
Teve tempo de se despedir

O esperançoso sempre é pego no repente
Como uma bala perdida
um atropelamento
Um enfarto fulminante em um jovem
Cai no espanto
Entra no limbo da perplexidade
Atónito
Sem movimentos
Paralisado

As lágrimas do realista são como doce chuva
São da despedida do velho avô
que se foi de velhice

Os olhos secos e petrificados do esperançoso
onde rola uma única lágrima
que é como uma mensagem
um broto novo em árvore caída
só pra lembrar que ali existe vida

Certo é
que decorrido o tempo necessário
o choro estoure como uma barragem amontante
contida, transbordante de dejetos
mas ninguém vê
e quem morre
ela
o derradeiro
sobrevivente
Esperança









O que havia antes de nós?
Onde ficaram as memórias?
O que éramos antes de nós?
Quem éramos?
O que era?

Em algum lugar
Em algum momento
Onde se perdeu?

Quem antes reparou no tempo?
Quem foi o primeiro a dizer: antes?

Quem foi o primeiro a dizer?

E antes, o que havia?

Há um vazio
Dentro
Fora
Um vazio
Uma falta de ideias
Um branco eterno em nossa mente
O que havia antes?
Antes de nós?

Você era perfeita
Sublime
Exuberante
Ainda és

E por querer se repartir
nos gerastes
mesmo sendo perfeita
sublime
exuberante

Ainda és.

A violência e o caos
caminham em total delicadeza
Nos ensina em sua paciência
Se é que ainda aprendemos

És perfeita!
Sublime!
Exuberante!

Há um vazio em meu peito
Por não me sentir completo
Amargo em desrespeito
Me sinto um objeto
Mais como um dejeto
Por estar fora de contexto

Você que não se revolta
o mundo a minha volta
quer me dizer o contrário

Se explode em tamanha fúria
Não é a fúria que te explode
É que tenta arrumar jeito
Por ter, assim, tanto zelo
Pelo que és
e pelo que foi outrora

Há um vazio em meio peito
Por não me sentir completo
Amargo em desrespeito
Me sinto como que sem teto
Entre abismos sobre um graveto
Consome-me o desespero

O que havia antes de nós
senão o que é perfeito?

Perdoe-nos
por ser o que somos
ou o que nos tornamos
Se hoje a chuva já não nos alegra
A culpa é nossa
é do que as sua águas carregam

O que haverá depois de nós?
Onde ficará a memória?
Será o fim
Ou início
Da derradeira história










Me escapa
me foge
escorre
por mais força que se faça
por mais que se aperte os dedos contra a palma
a alma

Tenho muito
e quanto mais tenho
menos a tenho
a que escore entre os dedos e a palma
a alma

Tantos lugares fui
mais que todos em outras eras
e isso
ao invés de me curar
me fez matar
aquela que se esvai
entre os dedos e a palma
a alma

Do que adianta
ganhar o mundo?
Se o mundo
não vale mais
do que a alma
que escapa
foge
escorre por entre os dedos e a palma

Salva-me
pois prefiro o mundo
a minh`alma
Salva-me
porque sozinho já vou perecendo
e vai escorrendo
entre os dedos
os dedos e a palma
aquela
pérola
digna de sua morte
minha alma
Salva-me
Salva-me
Salva-me
Alva-me
Alma-me
Ama-me






Olhou no espelho
era uma manhã
ou eram as luzes
olhou no espelho
viu pelo vidro
o banheiro

Viu alguém mais velho
surrado pela vida
não soube quem era
olhou no espelho
e viu pelo vidro
o desespero

Gritou
e os ecos o ensurdeceram
afirmou que era foda
sem medos
perfeito
olhou no espelho
e não viu nada
além do espelho

Quebrou
e os cacos o cortaram
e o mosaico criado no chão
era de sangue vermelho
haviam milhares de nada
espalhados pelo chão do banheiro

Chorou
um choro comovente
daqueles que só se chora em enterros
olhou para onde ficava o espelho
e viu na parede
um nada eterno

Sem ele mesmo
não sabia o que era
mesmo tendo tudo
o que se procura na terra

Sem saber o que era
procurava a morte
que se esquivava
como quem se esquiva da morte

Oh fim!
O que poderia fazer para que venhas?
lance teus dardos sobre mim
não te detenhas!

Antes que me esfacele por inteiro
e seja assim como os cacos
desse espelho
que é meu reflexo
junto ao sangue no chão do banheiro

Não fujas de mim
meu amor derradeiro
me encontre lá fora
no sol
no terreiro
nos vales profundos
no alteiro

Ou me devolva
ó deus
aquilo que está em seus olhos
e que procuro no espelho
assim quem sabe
eu possa ser
e novamente ser verdadeiro
pois procuro e não vejo
aquilo que outrora
era para mim como um beijo:
•••eu mesmo•••










Agosto
agosto
seu rosto
agora impresso dentro de mim
escrevo
não quero
preciso
as palavras aliviam
elas criam
mundos pra mim

Agosto
agosto
me trouxe um dia aqui
e comigo vieram
tristezas
alegrias
e o que mais pudesse vir

Agosto
agosto
quem sabe se foi em agosto
que realmente nasci?

Era meia noite
de dores de parto
sofria por mim

E viu-se indo
mas ainda lutava
para me parir
e de amor
a morte
não era nada
porque mais que a si
me queria ali

Agosto
seu rosto
não me lembro se vi
mas o seu abraço
sua voz
um laço
que sempre me acalma
quando perto de ti

Agosto
agosto
quantos agostos
eu trago hoje no rosto?
E o documento
que trago no bolso
não diz a verdade
de quantos agostos vivi

Agosto
agosto
não acabe nunca
fique por um século
não tenha fim

Porque se tu vais
vem sempre o desgosto
o gosto do mosto
o cheiro do mofo
e a vontade inebriante de partir

Agosto
agosto
se estenda
como logos
para que eu sempre seja a criança
a que dela é o reino
a que eu sempre quiz