
Sinto
quase não falo
os dias, as pessoas
Agosto se acaba
e acabam com ele
as mesmas coisas
que acabam todos os dias
A vida de muitos se foi
A vida de muitos começou
A vida de muitos mudou
Pra pior? Pra melhor?
A vida como sempre passou
Tenho sido
por um bom espaço de tempo
um observador
já quase não participo de debates
já quase não entro em desavenças
e discussões
Já não acho necessária minha opinião
na maioria dos temas da vida
da vida que não seja a minha
Tenho aprendido a amar
a amar às vezes a distância
Porque tenho muitos espinhos
Porque ainda sou frágil
porque respeito a mim
respeito o próximo
Que entendam
ou não
Que importa?
Quem se importa?
Por que se importar
com os detalhes da vida alheia?
Porque me importar com erros que me atribuem?
Erros que não cometi?
Erros que cometo
e que só dizem respeito a mim?
Agosto se vai
e com ele a certeza
que todos os dias são iguais
Apenas eu tenho mudado
Deixe eu falar
antes que agosto se vá
e se vá por inteiro

apagaram-se as luzes
mas não foi assim de repente
foi devagar
tão devagar
que ninguém percebeu a escuridão
Os olhos se encheram de lágrimas
mas não foi assim de repente
foi devagar
tão devagar
que ninguém as viu para enxugar
A cabeça quase explode de dor
mas não foi assim, deveras, de repente
foi devagar
tão devagar
que nem percebemos que a hora de dormir já havia passado
E agora que disseram
que as flores iam se abrir
não podemos ver
Apagaram se as luzes
e eu estava sozinho
Apagaram se as luzes
mas também já não sinto a fragrância das flores
Um disparate agora me sobrevêm
e já não sei para onde ir
e nem para onde vou
Sei que vou
e sinto que todos vamos
ainda que sem o cheiro das flores
E que flores são essas
que na minha ilusão
pensei me levar para onde eu queria?
Errei
errei em tudo
e quando pensei recomeçar
era somente para continuar de onde eu havia parado
E antes eu houvesse parado
E antes eu não ouvisse os vossos passos
Indo junto comigo para um caminho que já não sei
Porque apagaram se as luzes
e não foi assim tão de repente
hoje sei que não foi
ninguém viu
e nem percebeu que era chegada a escuridão
Ei cara!
Coitado de você!
Dizem ainda sobre livre arbítrio.
Que bobagem!
O que não falta é coragem
eu só não sei pra que...
A gente anda apressado
quase sempre cansado
A vida parece um correr para o ponto de ônibus
e lá chegando ficar esperando por mais de meia hora.
Eu sempre digo
as palavras não dizem a mesma coisa sempre
vejamos:
Felicidade
A pouco era ter um nome, uma família
Hoje, pelo que me parece
depende, dentre outras tantas coisas
de política e religião, ou não...
Amigo é outra dessas palavras que já não dizem...
Agora mesmo, não consigo fugir da analogia do ônibus
Você espera, ele vai te levar pra um lugar que você precisa
não exatamente um lugar que você quer
Uns ficam na porta, outras ainda andam muito pra chegar
As voltas que os ônibus dão
Inúteis pra você, ainda mais pra você que desce no final
essas voltas são necessárias pra quem vai ficando pelo caminho...
Ônibus!
A vida urbana e os ônibus
Tão parecidas e intrinsecamente ligadas...
Vai entender!
Na minha cidade é assim... a gente queria metro
mas temos que nos virar com os ônibus...
Afinal aqui o metro liga o nada a o lugar nenhum...
É o que dizem. Dizem também que não é um metro, é um trem.
Talvez seja o destino, talvez seja sacanagem mesmo.
Ei cara!
Coitado de você!
Dizem ainda sobre livre arbítrio.
Mas ainda desconfiam de você quando entra no ônibus...
Estou quase convencido que os ônibus estão aqui para nos dizer algo.
talvez uma mensagem oculta
uma mensagem de Deus!
18:30
Tá quase na hora
ele vem lotado...
não quero pensar nisso
Vou aproveitar algum canto qualquer
e ler um livro...

A passagem do tempo
O contar os dias
As palavras ao vento
O sol que ardia
As figuras na mente
O Pensamento
As horas
os meses
os momentos
As loucuras
os sons
as ruas
os sóis e as luas
Miragens
poeira
abismo
beira
Fumaça
Vapor
Tempus fugit
O relógio que me ameaça
seu clique
contínuo
bomba atômica que me mata
Aprendi a dormir
mesmo te ouvindo
clique-claque
a me ninar
bomba constante
aqui dentro, nuclear
Aprendi a te amar
(Aqui dentro
não sei como ainda
mantenho os processos
acordo
durmo
venho trabalhar
Tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo
me impulsiona
me faz frear)

Passavam carros
todos vazios
nas avenidas lotadas
o pensamento engarrafado
Em todos os carros vazios
haviam celulares falantes
que falavam e falavam
de coisas importantes
Do lado de fora
calor e frio
e as pessoas que também sonhavam
estar em um carro vazio
Era uma pressa impressionante
do lado de dentro e de fora
enquanto o trânsito andava parado
haviam poucos
muito poucos do outro lado
As vezes havia tempo para um cigarro
quando por dentro e por fora
não estava tudo enfumaçado
as vezes havia tempo
as vezes, mas não raro
E em frente ao meu serviço
onde agora passam todos esses carros
havia um pé de mamão
desafiando todo esse estado
Eu não faço idéia de como ele
-o pé de mamão- cresceu ali
também não sei como de repente eu o vi
Na rua Santa Catarina
em meio a Savassi
um pé de mamão!
e aqui em cima na sacada
um cigarro em minha mão
Me lembro de você
ai em casa
e sinto o coração
Vou a terapia hoje
resolver problemas de carros
fumaça
e agora mamões
Deve ser isso mesmo
deve ser que seja isso ai....
