
"Não é possível comunicar-se
O silêncio é a única linguagem
das coisas que se esperam
em certezas de miragem"
Silêncio
Silêncio
e mudo
mudo continuar
das coisas que se esperam
não há palavras
Absurdo!
Não há ética
nem tão pouco moral
não há certo, errado
bem, mal
Das coisas que se esperam
não se pede um sinal
"Esquizofrenia!"
Uma voz
uma voz aqui dentro
medo
melodia
Das coisas que se esperam
se espera com paz
angustiosa paz!
E se anda
por ai
sem destino
E se anda por ai
desatino
Se vai
e não se pode voltar
das coisas que se esperam
se sabe
se sabe
mesmo na impossibilidade
se sabe
em toda e total verdade
Das coisas se esperam
contra a esperança caminhar
e no fim, ao longe ver
se regozijar
das mesmas coisas que se esperam
dessas
dessas que não se pode comunicar

Estar pronto para morrer
é este o último limiar
a última fronteira
que se deva atravessar
A mente se consome em desejos
viagens e roteiros
nunca pronta para cessar
Há paz na morte
Não se assustar com a morte
é reconhecer de vez por todas
a fragilidade da vida
a sua limitação
Tropeçamos todos os dias
por todo o dia
A morte é a realidade pungente
A nos esperar calmamente
À hora em que nossa hora chegar
E se vê muita gente tentando fugir
morrendo devagar
Sem nunca estar pronto
Sem pronto, nunca estar
E a morte que vem de mancinha
durante a vida nos abraçar
Nas manhãs que não mais saciam
No sol que só queima
No frio que corta
No dia que se esvai
sem que nada possa se fazer
Nos beijos que não acalentam
No canto dos pássaros que não se ouve mais
Na correria da vida
Na ansiedade
que só faz matar
Correr da morte
e na morte se abraçar
Estar pronto para morte
a qualquer hora
em qualquer lugar
E pode ser que se fique velhinho
e feliz
pois se venceu mais um medo
e sem medo é que se deve viver
pois sem medo
morrer não é morrer
é andar no caminho da vida
para um dia a vida absorver
sua vida
eterna
viver

Eu não sei morrer
não me ensinaram
disseram que não!
Eu não sei desistir
me proibiram
disseram que não
Eu não sei perder
nunca permitiram
gritaram que não
Cresci menino
abestalhado
e cheio de nãos
Envelheci infantil
queria todos os sins
Não entendia o nãos
Eu era o único
um clone especial
retrato de uma geração
Se eu fosse infeliz
entrava em agonia
suprema depressão
Eu não sabia ver
a verdade da vida
eu dizia que não
Até que morri
desisti
perdi
Vi
e ouvi
um sonoro NÃO

As vozes oscilantes
as imagens inconstantes
estou cansado
fatigado
As nuvens acima
a falta de rima
queria ser mudo
perder o mundo
E esses sorrisos
que não são alegria?
O pouco que resta
se esvai pelo dia
Olhe!
Você não é você!
É qualquer coisa copiada
Uma piada!
Um homem sobe agora pela rua
uma rua qualquer lotada
As ruas não são mais caminhos
nem ainda estradas
O mundo nunca esteve perdido
O mundo nunca teve salvação
por ser nosso retrato
nossa criação
E dentro de mais um escritório maldito
não tenho tempo para meus próprios dilemas
meus próprios conflitos
As frases que ouço o dia inteiro
Por mais amenas que sejam
soam como desespero
São carros demais
caros demais
tudo demais
E agora
que nem um cigarro me acalma
quero ser um bicho
sem alma
Rolar na grama
Rolar na grama
Rolar na grama
E depois de exausto
voltar pra cama
Hoje,quando souberes de qualquer morte
só te peço que chore

Dói demais
dói ainda
sempre dói
nunca finda
Se explicar
e ter razão
razão demais
sem emoção
Essa emoção
tão egoísta
a dor do outro
nunca é vista
O que me faz
fechar assim?
Se não eu mesmo
dentro de mim?
Então me calo
e esse silêncio
não nos diz nada
é como o vento
E ainda assim
eu procuro
como um cego
sobre um muro
De um lado
minha voz me chama
e do outro
a mesma clama
Só tenho olhos
para o espelho
e sou surdo
para conselhos
O tempo passa
e me arrependo
ainda é longe
mas estou vendo
Que o tempo passa
e não volta mais
que muito
ficou pra trás
A contramão
é minha vida
E agora?
Um beco sem saída!

Dedicar uma canção
à felicidade
é como esquecer todo o sofrimento
Correr!
E correndo
encontrar o vento
Nesses entardeceres da cidade
sinto, pesando
todos os pesares
como se o cinza
fosse o relato
de toda nossa verdade
E o céu que se cobre
com a fumaça da nossa vaidade
esconde sem esconder
dentro de uma nebulosa
a nossa maldade
Existe, atrás, bem atrás
de toda essa claridade
uma estrela que brilha
em nossos sonhos
(felicidade?)
Para enlouquecer-nos
e para que não saibamos jamais
que tudo isso é utopia
essa mentira repetida
contada dia-a-dia
A felicidade é a dor
a dor mais mórbida da humanidade
que corre
e morre
sem alcança-la
A felicidade é assim
essa coisa ensimesmada
que no fim de tudo
não resulta em nada
E atrás dela
de nada em nada
caminha essa capital humanidade