Quando vi era tarde demais
A impossibilidade de voltar
Voltar e voltar atrás

Eu era homem
e era homem demais

Quando escutei já havia passado
A improvável possibilidade de mudar
Mudar o que eu não havia escutado

Eu era homem
e era homem demasiado

Quando senti, senti de outro jeito
O inexplicável sentimento de deja vu
Eu não sabia do meu preconceito

Eu era homem
e era sem nenhum respeito

Mas quando minha hombridade se desfez
e me tornei humano
vi o que não podia ver
minha ignorância e seu tamanho

Quando invisível e sem força para lutar
fiz-me parte da humanidade
e escutei sobre a esperança
e que ainda não era tarde

E por fim, quando me tornei escárnio
transcendi, para além da obviedade
Sentindo o que não podia sentir
além gênero, era EU de verdade






A realidade
é a maior mentira jamais contada
Não existe nada
E o que se acredita não é verdade

Todas as palavras criadas
Todas as formas de pensar
reprimidas
formatadas
ensinadas

Não existe nada
só estas formas formatadas

O que?
Quem?
Onde?
Nada!

A realidade é essa mentira mal contada

Todos os nosso "ismos"
caídos
Todas as nossas "ias"
falidas
Invenções malfadadas

Nossa realidade
é mais uma, quiçá a pior
das possibilidades

Matéria
Superfície
3 dimensões

E eu aqui
sozinho
com meus botões





tivera de esperar
ser longânimo
não pode se ufanar
não se ensoberbeceu

chorou
tantas vezes quanto foi preciso

suportou
mesmo parecendo não se conter
e sobre nada mentiu
nem sobre sua dor

sorriu
crendo contra a esperança
viu o que os olhos não
podiam ver

acima de tudo
perdoou
e contra qualquer argumento
cobriu multidão de erros
venceu o medo
foi feliz







O mundo já se vai
e fico pensando na pelada de ontem, a que perdi

As bombas que aqui não caem
Vejo em vídeos em meu feed, juntamente com coisas que me fazem rir

Gente morta
Gato salvo
João sem braço
o livro
o que li
os que não li

O mundo se foi
Com aquela criança palestina
Sim, foi
a muito
na esquina
em todas elas
na inocência que não mais existe
no menino
na menina

Segunda deve haver outra pelada
hoje pinto as paredes
as paredes de minha casa

Um dia desses
se quiser
pode aparecer pra jogar com a gente
sempre falta alguém
será uma honra





No início
pensei
e pensei saber
e ainda, mesmo que improvável
deveria haver pelo menos um
que fosse um
sentido

Quando nessas horas
toda a humanidade invade
e dilacera minha mente
choro
desses choros internos
esses que ninguém vê

Eu mataria um bilhão de homens
para que houvesse paz
mas não sou capaz de matar um homem sequer
e mato todos os dias
milhares deles
pelas ruas e esquinas


Meus olhos não cruzam mais com os dos homens
não vejo humanos
vejo mentira
mentira tal
que a vaidade é uma virtude
Ah! Gostaria de poder exclamar:
Tudo é vaidade!

Cachorros, gatos e bois
ganham o nosso afeto.
Não nos apiedamos de pobres e índios
descobrimos motivos para odia-los
E matamos cachorros, gatos e bois
para termos ainda piedade de algo

O opressor e o oprimido
são o mesmo lado de uma moeda que nunca existiu
e do outro lado da moeda
existe apenas um vazio
o lado da moeda que nunca existiu...

É forte o sol aqui embaixo
procuro... procuro...
não acho.
É seco o chão em que piso
e das lágrimas que não choro
faço meu sorriso
como o amargo que se torna doce
por falta de opção
como o sentir que não se sente
e se chama coração
como continuar mesmo assim
sempre andando
como o ser que já foi
chamado ser humano
como quando se confunde
o ar, a respiração
e se continua olhando
por autocomiseração