Tenho boa índole
indolente
mas boa

não posso me corrigir
não posso me enxergar

faço o que faço
meus atos
caio
são laços

tenho sempre que me explicar
nunca consigo
prossigo
a consciência tranquila
o coração a disparar

e se digo que fico
é porque fico
mesmo sem nunca parar

era um cara sincero
o que espero
que um dia de mim
venha a se falar

mal compreendido
tudo o que o digo
volta a me acertar


sofro do mal das palavras
e no meu silêncio
volto sempre a falar


escuto rigorasamente
penso sempre no bem
atravesso o diálogo
pra não me enganar


e sou mal visto por isso
parecendo que não ligo
e que não gosto de escutar


minha mente arde em desejo
quando escuto as palavras
vontade sempre de reconciliar


meu corpo estremece quieto
minhas mãos se agitam em meu rosto
vontade de te abraçar


os olhos perdidos no espaço
fitam tudo o que queria
o que eu mais queria expressar


vejo em minha mente as verdades
os fatos
e tudo mais que não consigo expressar


conviver comigo é loucura
um cara confuso e sincero
que pede para nele confiar



dos mundos que idealizo e creio
vivo neste com a mente daqueles
esperendo neles estar



e as palavras que teço em poemas
não estão nunca em minha boca
somente em meu olhar




esperando sedento o dia
que o real e meu mundo
venham a se encontrar



nele somos todos puros
e em todos eu vejo
o desejo de amar


nele o mal que habita o homem
é apenas a vontade
que arde, de se encontrar



nele você me entende
e sem palavra alguma
posso me explicar



a distância criada pelo dia
e ressaltada pela rotina
só servem para nos alegrar


para quando chegarmos em casa
um abraço
um lamento ou sorriso
possam nos acalentar



e as dúvidas todas que temos
são apenas sobre o tempo
sobre dormir e acordar



nunca sobre nos mesmos
sobre quem somos
sobre deixar ou acreditar



onde se encontra minha mente
e meu coração não se cansa
nunca, de te amar



é onde repouso nas noites
onde me perco ao seu lado
nos meus sonhos a delirar



espero um dia, mesmo que morto
que as pessoas que me conheceram
possam somente falar:
errou
fez tantas bobagens
mas nunca deixou de acreditar
no que dizia que cria
no mundo como ele via
nas verdades que não podia guardar
errou
mas foi sincero ao extremo
ao ponto de parecer se enganar
mas foi
contra o mundo, mesmo que singelo
seguindo o que dizia acreditar
errou
se arrependeu muito de muitas palavras
de coisas que fez e fazia
mesmo sem se sensurar
errou
machucou muita gente
que pensou que seu devaneio
era modo de se vingar
perdoou
a ele e o mundo
seguiu em frente, sempre
mesmo quando parado, sem nunca parar
foi mal entendido
mas foi sincero
sincero até acabar









é que morrer ficou caro demais
não vale mais a pena
ficou chato
ficou raro

gostava quando era coisa comum
e eu podia morrer aqui calado
sozinho, isolado
ao seu lado

achava o mundo pequeno
não passava de dois quarteirões
e eu não tinha mais que dois corações

a tarde era enorme
como enorme eram os dias
nas manhãs que dormia
nas noites vazias

e eu morria
e renascia
quantas vezes queria

mas morrer ficou caro
dá muito trabalho
e pra falar a verdade
ficou chato pra caralho

Invento outras formas
ouço outras notas
outras cores
outros tons
mais quente
mais frio
meu moletom / su corazón

um jeito enfim
de morrer uma morte
comum, diária, e no coração
morrer de saudades de ti
nem que seja por uma fração
de horas, segundos, ou emoção

retorno feliz, felicidade é um estado
não uma situação
mesmo quando se encontra
alegria ou tristeza
mesmo quando se morre
mesmo quando um final é falta de opção




















Dos lados
por todos eles
gente
de todos os tipos
tipos
de todos os jeitos
jeitos
de todas as gentes

Em todas as lajes bandeiras
em todas bandeiras, ideais
em todo ideal, preconceitos
em todo preconceito, mentiras
em toda mentira, verdades

Vaidade
em todo olhar
em todo olhar
vaidade

E você?
Entre todos
Um de todos
Todos
que não são um
Todos
que não são nada que você não seja
Todos
que nada tem de você

Cara!
Não sei do que faço parte
Cara!
Re-ajuntei minhas partes
Cara!
Não quero mais partes
Minh`alma, se despede
e parte

E parto
para o parto

Mas, de todos os lados
por todos os lados
em cima e embaixo
Gentes
tão-crentes-descrentes
controladores-descontrolados
amorosos-separatistas

Véi!
Tenho 24 horas, e só
Véi!
E nem isso eu tenho!
Véi!
Deixa eu parar por aqui


















é a morte que se morre todo dia
em nossa face
euforia

tráfego - parado
trânsito - parado
tráfico - lotado

boates - lotadas
bares - lotados
verdades - paradas (pela metade)

saia curta
blusa branca
a mesma marca
o mesmo refrão

escritório
empresa própria
concurso público
a mesma prisão

balada - manada
salário - otário - trabalho

é a morte que se morre dia-após-dia...
atrás de nossos muros (nossas mesas, nossos sorrisos, nossos balcões)
melancolia

e eu que também não sou feliz
o que digo?
é o que ouço... será mesmo o que se diz?

padrões estéticos
patéticos
espelho
mas não vejo...

padrões - patrões - ladrões
sua raiva
seu ódio
sua crítica
e você? vítima (?)(!)
sua raiva descabida
seu ódio bisonho
seu sonho!

E no fim, foram felizes os que ganharam dinheiro (?)
mataram
pisaram
torturaram seus irmãos

comeram
jantaram
e se alimentaram
dos próprios irmãos

fuderam
degladiaram
e amaram
seus irmãos

se lamberam
gozaram
com suas próprias mãos

sarraram
humilharam
estupraram seus irmãos

mansão - avião - solidão
medo - riqueza - munição

barraco - buraco - solidão
medo - pobreza - munição

passageiros todos de uma mesma embarcação


seja verdade ou refrão
seja feitiço ou unção
seja santo ou cidadão
seja rico ou ostentação
seja rolé ou invenção
seja favela ou barracão
seja aluguel ou mansão
seja vandalismo ou intervenção
passeata ou agressão
consciente ou povão
honesto ou ladrão
seja sábio ou vacilão
salto alto ou pé no chão
se nesta lista ou não

todos no mesmo barco
com tantos lados
remando
cada qual numa direção

que águas são essas?
quem me colocou neste barco?
neste charco?
nesta situação?

quem está do meu lado?
quem rema pro lado contrário?
quem toma a decisão?

e esses braços cruzados?
esse olhar perdido?
essa feliz desilusão?

quem são vocês?
quem sou eu?
o que é essa embarcação?

"quem tem os mapas? qual é a direção?""

um sentido?
um horizonte?
uma visão?

me (des)iludo
não remo
e agora
não mais mudo




















Postei uma ode as flores
mas elas não leram
jamais souberam
e não deixaram de sorrir

Compus o mais belo hino
aos pássaros
mas eles
sim, eles
não desviaram seu vôo

Escrevi
Filmei
corri
corri
corri
e mais uma vez escrevi
declamei
gritei
as mais belas palavras que aprendi
aos fundamentos da terra
mas eles
ao meu clamor apaixonado
não se moveram

Por fim
desisti
e no íntimo compreendi
que todos eles moveram o meu coração
para enfim me voltar para Ti