Sim cantarei
cantarei a fadiga de viver
louvores aos limites da vida
as tão cansáveis obrigações
aos sonhos impostos
a vã correria que nos submetemos

Júbilos estrondosos
às casa, aos carros
e aos empregos
às lindas mulheres
que temos que conquistar
e a todas as coisas de marca
sem as quais não somos

Às nossa faculdades
cursos e viagens
ao nosso gosto musical apurado
computadores, celulares
a nossa imensa lista de amigos
ao nosso bairro

E então rouco e exausto
suspirarei pela inutilidade do meu canto
e pela nossa infeliz felicidade
por ter ganhado o mundo
e perdido a alma





Dói tanto o coração
tanto...
É tanto choro contido...
me assombra sua vazão

São lágrimas para anos
para uma vida inteira...
É tanto choro guardado
estancado...

Um lamento
para vida inteira
para toda humanidade

Queria chorar
o choro da existência
e que de tudo me esvaziasse
que eu fosse deixando de ser eu
perdendo minha identidade
fosse escoando-me pela minha face

Que descesse por todo o corpo
e que esse choro me lavasse
e choro por mim
por toda a humanidade
e que ao molhar o chão
alguma semente regasse
que fosse de paz essa flor
e que em meu coração
também germinasse

Tomara Deus
eu vire uma lenda
um mito sem genealogia
que meus olhos virem esse rio
espalhando essa magia

Que me afogue
nessas lágrimas
que minha perdição
seja minha vida
para que a vida que vivo agora
não esteja perdida

Mas no agora
eu volto e olho pra dentro
ansiando como uma grávida
o estouro deste rebento
foi para isso que sei que me fiz
para essa hora
para esse momento

Dói tanto
tanto ainda o coração
e esses olhos marejados
não refletem nem de longe o estado
nem parecem represar tão grande vazão





É que nesses dias
ando tão livre
que não posso
nem dar as mãos
Não aceito nenhuma cobrança
e se cedo a chantagens
é por opção

Essa minha liberdade, anda me trazendo confusão
e me compadeço das pessoas que não entendem...
Ah! Isso tudo é ilusão
alienação
prisão

Ando em verdade preso aos meus traumas/fantasmas
que se escondem em meu coração

E afirmo - por fora - que ando livre
mas é tudo crise

Quando sairei e verei o sol
a luz
a manhã?

Me deixem aqui
ainda por pouco...
mais uma noite

para que receba minha liberdade - verdadeira -
em castigo
em açoite






Não se enganem
eu não me engano
e faz tempo que luto
pra não enganar ninguém

Não se engane
o maior engano
é enganar alguém

Não, mais uma vez eu peço
sim, eu imploro
não se engane
eu não mais me engano

E isto não é
algum tipo de mentira
ilusão
auto-engano
auto-afirmação
é contudo
uma constatação

Pois repito
e como em outras vezes
eu grito
só si engana
e é enganado
aquele que se acha esperto
Não se engane comigo
todos correm esse risco
mas eu não
engano ninguém





Orgulho nenhum
mas também
nenhuma vergonha
e em tantos arrependimentos
um alento
um encanto
de poder ser quem sou
no sorriso, no pranto


Nenhuma vergonha
mas nenhum incentivo
e a sabedoria que hoje clama
ela me chama
agora e sempre ao equilíbrio


Nenhuma vergonha
nenhum receio
ando hoje sem medo
de errar
e errar outra vez
mas a sabedoria me chama
sim, ela clama
refaz os caminhos
quando em paz
me ponho na cama
ela é brasa, não mais chama
que aquece o peito
e quando me deito
a levo comigo
ela é meu repouso, meu leito