A sombra dos meus olhos
contra as luz dos olhos seus
contraste
homem
deus

A clareza da sua voz
a rouquidão dos gritos meus

a beleza dos seus gestos
a estupidez dos atos meus

a paciência de sua escuta
a surdez do ego meu

o seu silêncio reverente
tão sábio
a indiferença nas palavras
meus lábios


A luz dos seus olhos
ofuscaram
minha parva visão
e entendi
não olhe para a luz
mas para o chão

A luz onde não há
variação ou sombras
A luz
a luz
meus olhos
as sombras
sem sombras
no chão


Das palavras tristes
que meu coração dizia pra mim
eu sempre pensei suportar
era como se eu dissesse a mim mesmo:
– o sofrimento é sua forma de viver

E dizia ainda
foi feliz
sofre o dano
encontrou o que poucos encontram
não reclame

E estar bem ao seu lado
me parecia
mesmo que inconscientemente
uma afronta a esse mundo que se deteriora

Eu me entregava
a todos
ninguém via
eu me acostumei com a ingratidão
pensei
nada pode penetrar a couraça de amor com a qual me revisto

Eu buscava a dor
como se ela me purgasse
e lavasse meus pecados

Pensei sair ileso
enquanto isso
meus olhos caíram
e as rugas surgiram

Ninguém viu
ninguém se importou




 Há tempos atrás 

Como quase todo poeta

Eu me inspirei nas flores

Nas flores que crescem no asfalto


Mas como todo poeta 

Tonto

Não pensei nessa flor 

Apenas no que ela parecia ser


Eu não quero viver pra morrer 


Eu não quero não ter raízes 


Eu não quero ser essa flor 


Hoje 

Depois que tudo virou peso

A flor do asfalto

Não passa de tristeza

De quem poderia ser e não foi 


De quem foi esmagada 

E sem chance

Floriu 

E logo morreu 


Diriam os poetas

Que a flor cumpriu seu papel 

Floriu 


Poetas são esses seres anômalos

Que querem ver beleza 

Rasos

Como rasa é a felicidade 


Ninguém quer ser a flor do asfalto 


Todos devem lutar

Para ser flor do campo 


Asfalto nem deveria existir

E é aí que mora a tristeza

Profunda

Mas nada mais que isso 


Não nos inspiremos nas flores do asfalto 

Perdidas 

Longe de tudo que deve ser flor 

Vivendo onde nem devia existir


Há quem se inspire 

Nas raízes das árvores das calçadas 

Que rompem concreto e asfalto 


Mas logo são cortadas 

Ou apodrecem

Nada pode contra o concreto 

Contra o asfalto 

Porque nós somos eles


Um dia 

Como diria um outro poeta

Não existirá aqui

Nem concreto 

Nem asfalto 

Nem flores 

Nem nós 


E em outro lugar qualquer

Talvez nasça um povo 

Que nunca construa concreto 

Ou asfalto 

E assim

As flores serão exemplo 

Um povo

Qualquer coisa como nós

Mas sem concreto e asfalto 


Fim.



Hoje
Somente hoje
Não brigue comigo
Se eu ficar em silêncio 
Se eu mudar de assunto
Se eu exagerar

Ainda mais 
Que hoje é 19 de agosto
E hoje o ano se acaba

Não brigue comigo
Eu não ligo 
Mesmo se for fingindo 
Me chame de amigo
Mas hoje 
Só hoje 
Não brigue comigo

Amanhã 
Começa todo o fim do ano
Mas hoje 
Só hoje 
Passa esse pano

Amanhã
Quando todo o peso do mundo
Oriundo
De todos os pesos profundos
Vierem á tona
A gente chora junto
E depois
Virá mais um dia
Um dia qualquer do fim do ano
Mas hoje 
Só hoje 
Vamos brincando

Olhei para o céu 
E não havia lua
Não havia estrelas 
Não havia outros mundos

Olhei e pensei 
Ser meu astigmatismo 
Cheguei aos 40
E meus olhos 
Logo eles
Desdobram as luzes 
E me confundem 

Queria te contar uma coisa 
Uma coisa qualquer 
Mas não brigue comigo
Se o assunto acabar

Pode ser que eu não tenha certeza
Do meu problema de vista 
Eu ainda não consegui decorar
Meu tipo sanguíneo 

Se eu morrer qualquer dia desses
Desses a partir de amanhã 
Não tente me trazer de volta 
É porque morri a alguns dias atrás 
E qualquer dia desses, quem ainda não morreu?

Espero que encontre alguns 
Erros nesses versos
Fui eu mesmo quem escreveu
Foi eu mesmo que escrevi 

Tinha algo hibernando em mim
Não era exatamente isso
Era como se estivesse morto
Tinha algo morto que não morreu em mim
Mas renasceu
Eu entendo agora 
Como aquele que não pode morrer
Morreu

A gente só entende a vida
Quando a gente não consegue explicar alguma coisa

Procuro agora um paradoxo 
Para terminar essa rima
Deve ser porque agora 
Estou caindo pra cima


Eu ainda tenho tempo 
Essa frase saiu
Sem que eu tenha 
Ao menos, tido escolha

Eu queria
Que minha vida
Fosse feita de outras coisas
Que não trabalho
Preocupação 
Um monte de outros (n) ãos 

Me invade
Como sempre (ou quase) 
Uma tristeza estranha 
Que se emaranha
Na sua sanha
De me dominar

Há um samba
Tocado no bar ao lado
Aumenta a tristeza 
E aqui fora 
Na mesa
Duas guimbas de cigarro
E não raro
Fossem três 

Acaba de acabar a cerveja
E veja
Acabou também o samba
Mas a tristeza
Não só minha
Mas em tantas outras mesas
Não termina
Essa mina
Onde todos se explodem

Faz frio
Mas não insuportável 
De alguma forma
Me faz sentir vivo

Queria escrever um livro
Que não sei do que se trata
É das angústias que me mata
Ter um cão vira-latas 
Viver entocado em uma mata
A dez metros de uma rodovia
Onde todos os dias
Passam mil eus em seus carros

Flui assim
As palavras ao vento
Desse frio irregular 
Numa data
Em que não devia
Longe demais das rodovias
E também da minha vida

Volta o samba
No bar ao lado
Ao lado da minha casa
Casa essa que não é minha
Sobe um frio na espinha 
Tenho ainda que trabalhar!

Já passa das dez
E uma angústia me abate
Entre continuar a escrever
Pegar outra cerveja
Ou tomar banho
Angústia sem tamanho! 

Vou tomar banho
Voltarei aqui pra fora
Quem sabe o samba tenha
Enfim
Acabado
E aqui do lado
De fora
Eu
Que devia ir dormir
Pegue outra cerveja
Aumente o número de guimbas 
E volte a sorrir