
Estou
em estado de luto constante
é como se um tanque
tivesse passado por cima de mim
E há tempos
a sinto vir
é como se aqui
fosse o lugar mais perto do fim
O fim
Ah! O fim!
Quando?
Como?
Meu coração
tem uma indagação
um pergunta
que ainda não foi perguntada
com uma palavra
que ainda não foi decifrada
Palavras são enigmas do coração decifrados
As palavras existem antes
antes que pela primeira vez fossem ditas
escritas
elas já pairavam em nós
muito antes
A angústia que me habita
é de uma palavra que ainda não foi dita
É como amar alguém que ainda não se conheceu
Ou chorar de saudade de um estranho
É como ter conquistado todas as coisas
e ficar insone com a falta de algo que não se sabe
Como procurar por algo que não se perdeu
ou a nostalgia de algo que não se viveu
Eu ainda não encontrei o que procuro
porque não sei o que procuro
e suspeito, que a procura, é por fim
o que eu tanto procurava
E talvez essa palavra
seja resultado
do meu mais suave e sereno silêncio

Pela manhã
quando acordares
logo cedo
ao sentir a claridade
Quando ainda os pensamentos são incertos
e os sonhos se misturam com a realidade
E a consciência ainda não se alinhou
Antes que as más notícias te alcancem
e a vontade da cama
e a necessidade de se levantar
forem a única questão seria a se resolver
Antes
antes de se dar conta que você cresceu
quando ainda em estado infante
onde as obrigações não te obrigam
Se houver alguém ao seu lado para contemplar
antes de qualquer palavra se formar na mente
contemple
ame
assim como eras
quando eras antes da memória
Um amor materno
que não se sabe
que só sente a necessidade
de amar
de total rendição
frágil
Pela manhã
quando o sol brilha mas ainda não queima
e as pequenas gotas de orvalho o resistem
e o frio da noite é uma lembrança
Quando a liberdade é sólida
e não existe senhores a quem obedecer
quando tudo anuncia o gênese
e os filhotes dos pássaros
ainda se aninham nas asas da mãe
Pela manhã
quando acordares
volta todo seu ser
para Ele
e sente
a graça
deixa ela inundar seu ser
em gratidão
sinta o ar preencher cada espaço dos pulmões
antes de tudo
sinta
e sinta apenas
Ele
está em tudo como dádiva
Ele está
Ai
No agora
Ele está
Ele
Ele é amor
O amor
Ele é

O chão
Suplantado
abolido
Suspensão
dos sentidos
sentimentos
de toda razão
Parte da força
para continuar
estava em não pensar
Mas agora
o pensamento me engoliu
e me pariu
eu sou ele
e ele sou eu
Você é agora
algo acima
um pensamento infinito
sem pausas
opressor
angustiante
Não há chão
E o que importa se há
apoios ou não?
Só há queda se não há chão
Agora tudo
me parece um passado eterno
um enterro sem corpo
um choro
sem causa
mas ainda assim o mais triste choro
Ouço vozes
sinto mãos em meus ombros
alguém distante caçoa
e nada disso importa
Algo em mim parece gostar
aquele algo que sempre me dizia
que nada nunca fez sentido
e só existe isso agora
meu pranto e eu
pois até quando não choro
estou chorando
Eu queria tudo de volta
mesmo que nada agora faça sentido
Eu queria uma chance
eu não suporto a ideia de viver sem você
é pesado demais
e por tanto peso
se foi o chão em ruínas
E quem é você que dava sentido à vida
senão minha própria projeção?
Foi você um emprego
a família
um amor?
Um sonho
um plano
um filho?
Foi você...
e não foi
foi tudo isso
e não foi
foi auto-engano
você foi eu
e eu, pelo visto, não fui nada
Todos nós no íntimo sabemos
que não há sentido para a vida
que todos os dias raiam e nascem
sem objetivo algum
que não seja um repetir incessante
massacrante, que não leva a nada
e a lugar nenhum
Olhamos para frente
e o que vemos?
Poeira!
Nossas conquistas?
Nosso dinheiro?
Nossas experiências?
Nosso vazio!
Os anos passam
e até o mais conquistador dos homens
se sente um fracassado
não há recompensas
há sempre mais falhas
mais desacertos
A vida é um construir sobre as nuvens
Um desejo angustiante de reconhecimento
Um show ininterrupto de falsidades
Um atropelar progressivo
em que não se respeita nada
nem ninguém
em que se elege o que
e quem amar
para agrado próprio
A vida é um ato egoísta
egocentrada
num ensimesmamento
que produz um vácuo
Até que o chão é suspenso
ou enfim sentimos que por toda a vida
só estávamos caindo
Ai, e somente ai
talvez haja esperança
O dia da perplexidade
chega para todos
dia sim, dia não
anos à frente
não importa
ele chega
e bem aventurados aqueles que caiem
e no fim encontram
nessa queda em si mesmo
os outros
todos agora no mesmo chão, real
só ai começa verdadeiramente a saga do amor
pois a vida
a vida mesmo
tem um único objetivo
um único sentido
uma única razão de ser
o amor
o amor somente
e somente o amor

Eu penso sobre o meu pensamento
Eu penso
e quando venço
há um lamento
aqui dentro
A razão
Tenta encontrar equilíbrio
e corre grande perigo
A razão
desconhece a razão
a razão do meu coração
Eu penso
penso sobre o que eu sinto
e pra mim minto
achando que o que sinto
e o que penso
não podem
jamais
entrar em consenso
Meu corpo fala
nunca se cala
mesmo quando paralisa
ele me avisa
mesmo quando se abala
ele fala
E eu penso
penso que sei o que sinto
e sinto por não concordar comigo
os sussurros do ser no ouvido
que chamam de intuição
amiga próxima do coração
E eu vivo
como quem joga consigo
sou amigo
sou inimigo
de um jogo que não quero jogar
então penso
que o meu pensamento
é um fruto como que proibido
resultado de anos perdidos
que insisto em encontrar
e encontro
na síntese do ser desvalido
que perde e acha abrigo
em si próprio
e em outro lugar
Eu não sou o meu pensamento
nem eterno nem momento
mas também não sou o que sinto
nem a verdade, nem o que finjo
não sou só mente
nem corpo
nem só coração
sou algo resultado de tudo
ou que olha pra tudo
nem razão
nem intuição
sou algo que ainda busco
mas carece de explicação

Estou decepcionado!
Me empurraram sem me perguntar
Para um dos lados
E eu que até me achava equivocado
Fui sendo obrigado
a vestir as roupas
que vestem um dos lados
Me vi proibido de gostar do que gosto
e censurado por postar o que posto
Sim! Censurado!
Exatamente como do outro lado
O mundo anda embriagado
não percebe, que de fato
não existe lados
existe apenas "em cima" e "embaixo"
Lá em cima estão os deuses
dos quais desconheço a face
aqui embaixo estamos nós
refluxo de sua catarse
Lá em cima os que tem nome
aqueles que são adorados
Aqui embaixo nós
que fomos colocados de lado
Aqui embaixo sobraram, pra gente, os lados
Num doentio jogo
dos deuses
o jogar dos dados
Se dos deuses desconheço o nome
para nós que somos números
sobrou a fome
Aqui embaixo a gente se empurra
em filas
de todos os lados nos resta a latrina
Os deuses não brigam
só brincam
e se morrem
não é como nossa morte
nossa sempre morte severa, severina

O mês mais curto do ano
Num loop infinito-sem-fim
28 deve ser o número da eternidade
Dessa cruel eternidade humana
Meu espírito
Ainda não discerniu
Rejeita
Não quer
Repulsa
A ganância
A lama
O mata leão
O humano está extinto
Somos outra coisa
O humano sempre foi mau
Mas transcendemos
Não há quem faça o bem
Nenhum sequer
E isso já não assusta
Acordei cedo
Olhei o calendário
Ainda era fevereiro
Fevereiro é um estado de espírito
Sem espírito
Amanhã será dia 02 de março
E fevereiro reinará sobre nós
Estamos presos
E tudo que vemos
É um reflexo nítido
Imagem e semelhança do que nos tornamos
Esperei fevereiro acabar
Para escrever
Não queria me assustar
Dia 28 chegaria ao fim
E as tragédias acabariam
Mas acordei
E comemoravam a morte de uma criança
Fevereiro venceu
E nós?
Nós já não somos