
Eu penso sobre o meu pensamento
Eu penso
e quando venço
há um lamento
aqui dentro
A razão
Tenta encontrar equilíbrio
e corre grande perigo
A razão
desconhece a razão
a razão do meu coração
Eu penso
penso sobre o que eu sinto
e pra mim minto
achando que o que sinto
e o que penso
não podem
jamais
entrar em consenso
Meu corpo fala
nunca se cala
mesmo quando paralisa
ele me avisa
mesmo quando se abala
ele fala
E eu penso
penso que sei o que sinto
e sinto por não concordar comigo
os sussurros do ser no ouvido
que chamam de intuição
amiga próxima do coração
E eu vivo
como quem joga consigo
sou amigo
sou inimigo
de um jogo que não quero jogar
então penso
que o meu pensamento
é um fruto como que proibido
resultado de anos perdidos
que insisto em encontrar
e encontro
na síntese do ser desvalido
que perde e acha abrigo
em si próprio
e em outro lugar
Eu não sou o meu pensamento
nem eterno nem momento
mas também não sou o que sinto
nem a verdade, nem o que finjo
não sou só mente
nem corpo
nem só coração
sou algo resultado de tudo
ou que olha pra tudo
nem razão
nem intuição
sou algo que ainda busco
mas carece de explicação

Estou decepcionado!
Me empurraram sem me perguntar
Para um dos lados
E eu que até me achava equivocado
Fui sendo obrigado
a vestir as roupas
que vestem um dos lados
Me vi proibido de gostar do que gosto
e censurado por postar o que posto
Sim! Censurado!
Exatamente como do outro lado
O mundo anda embriagado
não percebe, que de fato
não existe lados
existe apenas "em cima" e "embaixo"
Lá em cima estão os deuses
dos quais desconheço a face
aqui embaixo estamos nós
refluxo de sua catarse
Lá em cima os que tem nome
aqueles que são adorados
Aqui embaixo nós
que fomos colocados de lado
Aqui embaixo sobraram, pra gente, os lados
Num doentio jogo
dos deuses
o jogar dos dados
Se dos deuses desconheço o nome
para nós que somos números
sobrou a fome
Aqui embaixo a gente se empurra
em filas
de todos os lados nos resta a latrina
Os deuses não brigam
só brincam
e se morrem
não é como nossa morte
nossa sempre morte severa, severina

O mês mais curto do ano
Num loop infinito-sem-fim
28 deve ser o número da eternidade
Dessa cruel eternidade humana
Meu espírito
Ainda não discerniu
Rejeita
Não quer
Repulsa
A ganância
A lama
O mata leão
O humano está extinto
Somos outra coisa
O humano sempre foi mau
Mas transcendemos
Não há quem faça o bem
Nenhum sequer
E isso já não assusta
Acordei cedo
Olhei o calendário
Ainda era fevereiro
Fevereiro é um estado de espírito
Sem espírito
Amanhã será dia 02 de março
E fevereiro reinará sobre nós
Estamos presos
E tudo que vemos
É um reflexo nítido
Imagem e semelhança do que nos tornamos
Esperei fevereiro acabar
Para escrever
Não queria me assustar
Dia 28 chegaria ao fim
E as tragédias acabariam
Mas acordei
E comemoravam a morte de uma criança
Fevereiro venceu
E nós?
Nós já não somos

Não foi fácil chegar até aqui
Aqui é um lugar que não sei bem onde é
Janeiro
Às vezes me sinto fora
E fora também é um lugar que não sei definir bem
Quando dezembro acaba
muito muda
e nada muda
talvez o calor aumente
aqui nos trópicos
onde a vida parece não ter tanta importância assim
Existem vidas que valem mais que outras
mesmo sabendo que nenhuma vida vale mais que outra
Eu me detenho em pensamentos sobre guerras
sobre a inutilidade das guerras
e não consigo deixar de brigar com pessoas que amo
Uma das grandes tragédias de se tornar consciente
é conseguir enxergar os próprios erros
e não conseguir corrigir os próprios erros
Existe mais pureza em quem defende seus erros sem percebe-los
Eu carrego uma tristeza que nunca me abandonou
Às vezes ela se esconde
Se esconde tão bem
que penso a ter perdido
mas ela espreita pelas frestas do meu ser
esperando o momento do erro
pra se mostrar viva e nutrida
sempre mais forte do que antes
Carrego uma felicidade irredutível
irmã mais nova daquela tristeza
que vive por tentar se mostrar
mais frágil que a outra
ela tenta se revelar
a todo momento
ela tem me mantido vivo
A minha tristeza se parece mais comigo
suspeito que sejamos um
A felicidade me foi dada
é um implante
Não foi fácil chegar até aqui
Mas ainda é Janeiro
talvez isso tudo mude
Há sempre mais força naquilo que é frágil
Há sempre mais esperança em algo que não parta de mim
Ainda é Janeiro
e o tempo
esse cruel amigo
destruirá o começo
e fará as coisas se aplainarem
e correrá de forma mais suave
sem a pressão dos recomeços
sem a cobrança das mudanças necessárias
fará tudo ser meio
até que a alegria desesperada do final se aproxime mais uma vez
Não foi fácil chegar até aqui
mas ainda é Janeiro

Deve ter sido em 1995
Num desses anos
em que nada importante acontece
Começo a ter grandes saudades
desses tempos que não me lembro
Só me lembro que não havia nada
nada de importante
nem uma paixão
pelo menos nenhuma que valha a memória
A vida transita entre a vontade
e a saudade
Um tipo estranho de ansiedade
uma forma subliminar de melancolia
Uma lembrança
que traz uma alegria
que angustia
A segunda década do novo milênio
Trouxe fantasmas
Monstros outrora mortos
ressurgiram
mais fortes
mais sutis
mais convincentes
E dentro dos nosso corações
eles também nasceram
pode ser também que
nunca estiveram mortos de fato
É impossível sair ileso
o mal já está feito
pode até ser também
que ele sempre esteve
Estou convicto que é muito melhor querer
do que precisar
Mas infelizmente, faço mais escolhas porque preciso
do que porque quero
Eu queria querer mais que precisar
Eu queria precisar apenas de uma bola de couro
Houve uma época que esse era meu maior sonho
Hoje tenho sonhos mais modestos

Era agosto
Uma criança nascia
E aqui do outro lado
Uma vida, singular vida, se ia
Era agosto
Dia 19
Uma festa acontecia
E ali bem do lado
Uma vida, por um fio seguia
Meu coração
Que de forma estranha, tudo sabia
Pressentia
Foi da euforia a melancolia
Terminou o dia em alegria
Uma vida que há anos
Era só saudade
Queria estar, queria partir
Reencontrar seu amor
Que durante mais de 60 anos
E há pouco estava ali
Queria uma casa que fosse só sua
Queria a nova Jerusalém
E pra'lém
Queria Ele, e só Ele, pra sempre
E amém
Foi-se minha velha
A pedra preciosa
Me deixou orfão
E um pouquinho daquela saudade infinita
Agora me habita
Eu sei que um dia
Eu também serei só saudade
E estarei mais perto de ti
Sei que me esperas
E o que é o tempo?
Logo estaremos todos ai
Uma vida que era só saudade
E a saudade agora nos une a ti
Partiu, em paz, para eternidade
No mesmo dia em que nasci
E nasceu mais um ramo
E me ficou a mensagem
Como se dissesse, estarei sempre aqui
Foi-se a vida
Que era somente saudade
E a saudade aperta agora em mim
Ainda vejo seus olhos
Pequenos olhos
Que já miravam a eternidade
Já não faziam parte daqui
9
28
27
96
33
19
Fazem sentido pra mim
Era agosto
E uma alegria eterna
Invadia meu coração
Era agosto
E meus olhos lacrimosos
Nunca te esquecerão
Era agosto
E sua pele fina
Ainda sinto em minha mão
Era agosto
E sua alma, bendita alma
Entrou em redenção
Era agosto
E eu sei que seu rosto
Estará para sempre em meu coração