As vozes oscilantes
as imagens inconstantes
estou cansado
fatigado

As nuvens acima
a falta de rima
queria ser mudo
perder o mundo

E esses sorrisos
que não são alegria?
O pouco que resta
se esvai pelo dia

Olhe!
Você não é você!
É qualquer coisa copiada
Uma piada!

Um homem sobe agora pela rua
uma rua qualquer lotada
As ruas não são mais caminhos
nem ainda estradas

O mundo nunca esteve perdido
O mundo nunca teve salvação
por ser nosso retrato
nossa criação

E dentro de mais um escritório maldito
não tenho tempo para meus próprios dilemas
meus próprios conflitos

As frases que ouço o dia inteiro
Por mais amenas que sejam
soam como desespero

São carros demais
caros demais
tudo demais

E agora
que nem um cigarro me acalma
quero ser um bicho
sem alma

Rolar na grama
Rolar na grama
Rolar na grama

E depois de exausto
voltar pra cama

Hoje,quando souberes de qualquer morte
só te peço que chore






Dói demais
dói ainda
sempre dói
nunca finda

Se explicar
e ter razão
razão demais
sem emoção

Essa emoção
tão egoísta
a dor do outro
nunca é vista

O que me faz
fechar assim?
Se não eu mesmo
dentro de mim?

Então me calo
e esse silêncio
não nos diz nada
é como o vento

E ainda assim
eu procuro
como um cego
sobre um muro

De um lado
minha voz me chama
e do outro
a mesma clama

Só tenho olhos
para o espelho
e sou surdo
para conselhos

O tempo passa
e me arrependo
ainda é longe
mas estou vendo

Que o tempo passa
e não volta mais
que muito
ficou pra trás

A contramão
é minha vida
E agora?
Um beco sem saída!





Dedicar uma canção
à felicidade
é como esquecer todo o sofrimento
Correr!
E correndo
encontrar o vento

Nesses entardeceres da cidade
sinto, pesando
todos os pesares
como se o cinza
fosse o relato
de toda nossa verdade

E o céu que se cobre
com a fumaça da nossa vaidade
esconde sem esconder
dentro de uma nebulosa
a nossa maldade

Existe, atrás, bem atrás
de toda essa claridade
uma estrela que brilha
em nossos sonhos
(felicidade?)

Para enlouquecer-nos
e para que não saibamos jamais
que tudo isso é utopia
essa mentira repetida
contada dia-a-dia



A felicidade é a dor
a dor mais mórbida da humanidade
que corre
e morre
sem alcança-la

A felicidade é assim
essa coisa ensimesmada
que no fim de tudo
não resulta em nada

E atrás dela
de nada em nada
caminha essa capital humanidade









Correram as águas
passaram
passaram por mim
as águas mansas
as águas mansas do fim

Senti o cheiro do tempo
do musgo, da poeira, da ferrugem
e do tempo que não se pode sentir
Senti as águas passarem
as águas correntes do fim

Olhei para o sol e era tarde
o ocaso caiu sobre mim
o horizonte ainda mais distante
distância que não se pode medir
Molharam meus pés essas águas
As turbulentas águas do fim

Sentei-me nas cinzas da vida
No escuro já tão eminente
no escuro onde me vi
batizei-me nas imóveis águas
nas águas profundas do fim

Renasci

Para saber o que sempre se sabe
que por todo tempo iludi
estive imerso
imerso e respirando
das águas
as águas
as infindáveis águas do fim






Eu vi muita gente
muita gente se acomodando
se acostumando

Fazendo a troca
e se tornando
a cada dia
algo que eles mesmos desconheciam

Diziam:
Foi a vida
Como se a vida tivesse culpa
como se a culpa fosse imperdoável
como se o perdão não existisse

Eu vi os seus olhares mudarem
e carregarem uma tristeza
bem lá no fundo
Vi seus sorrisos se afrouxarem
e com os dias se tornaram amarelos

Eu vi a vida se tornar existência
E a existência se tornar pesada
Vi o peso vencer a alegria
e tudo se tornar rotina


Eram mães, esposas e maridos
velhos, crianças, filhos
Gente de toda sorte
Existindo em uma vida de morte
Sem norte

Pra onde quer que se olhe
Os olhos não param de ver
sonhos mortos
sorrisos tortos

Os vi desistirem
do que não se deve desistir

Vi suas fotos
e olhei em seus olhos
Li suas palavras
que não diziam mais nada
e chorei.







Quando vi era tarde demais
A impossibilidade de voltar
Voltar e voltar atrás

Eu era homem
e era homem demais

Quando escutei já havia passado
A improvável possibilidade de mudar
Mudar o que eu não havia escutado

Eu era homem
e era homem demasiado

Quando senti, senti de outro jeito
O inexplicável sentimento de deja vu
Eu não sabia do meu preconceito

Eu era homem
e era sem nenhum respeito

Mas quando minha hombridade se desfez
e me tornei humano
vi o que não podia ver
minha ignorância e seu tamanho

Quando invisível e sem força para lutar
fiz-me parte da humanidade
e escutei sobre a esperança
e que ainda não era tarde

E por fim, quando me tornei escárnio
transcendi, para além da obviedade
Sentindo o que não podia sentir
além gênero, era EU de verdade