O mundo já se vai
e fico pensando na pelada de ontem, a que perdi

As bombas que aqui não caem
Vejo em vídeos em meu feed, juntamente com coisas que me fazem rir

Gente morta
Gato salvo
João sem braço
o livro
o que li
os que não li

O mundo se foi
Com aquela criança palestina
Sim, foi
a muito
na esquina
em todas elas
na inocência que não mais existe
no menino
na menina

Segunda deve haver outra pelada
hoje pinto as paredes
as paredes de minha casa

Um dia desses
se quiser
pode aparecer pra jogar com a gente
sempre falta alguém
será uma honra





No início
pensei
e pensei saber
e ainda, mesmo que improvável
deveria haver pelo menos um
que fosse um
sentido

Quando nessas horas
toda a humanidade invade
e dilacera minha mente
choro
desses choros internos
esses que ninguém vê

Eu mataria um bilhão de homens
para que houvesse paz
mas não sou capaz de matar um homem sequer
e mato todos os dias
milhares deles
pelas ruas e esquinas


Meus olhos não cruzam mais com os dos homens
não vejo humanos
vejo mentira
mentira tal
que a vaidade é uma virtude
Ah! Gostaria de poder exclamar:
Tudo é vaidade!

Cachorros, gatos e bois
ganham o nosso afeto.
Não nos apiedamos de pobres e índios
descobrimos motivos para odia-los
E matamos cachorros, gatos e bois
para termos ainda piedade de algo

O opressor e o oprimido
são o mesmo lado de uma moeda que nunca existiu
e do outro lado da moeda
existe apenas um vazio
o lado da moeda que nunca existiu...

É forte o sol aqui embaixo
procuro... procuro...
não acho.
É seco o chão em que piso
e das lágrimas que não choro
faço meu sorriso
como o amargo que se torna doce
por falta de opção
como o sentir que não se sente
e se chama coração
como continuar mesmo assim
sempre andando
como o ser que já foi
chamado ser humano
como quando se confunde
o ar, a respiração
e se continua olhando
por autocomiseração










Amigos!
Queria avisar-lhes
Que não morri!

Avisar que meu sorriso
pra todos ainda sorri

E também que continuo
ainda por aqui

E que me esforço
para nunca mentir

Amigos!
Queria avisar-lhes
que o mundo não acabou

Que o asfalto
meu coração não asfaltou

Que a cidade é o sonho
de quem nunca sonhou

E que existe vida
muito pr`além do rock in roll

Amigos!
Queria que soubessem
mas que não se entristecessem

Vocês podem também não morrer
Viver uma vida que seja viver
E ser sempre sendo o que se tem que ser

Amigos!
Nas últimas horas
se foram os dias
E a noite, que outrora tardia
chegou
e ficou
de mancinha

Amigos!
Agora que existe
um sol pra cada cabeça
amendronto-me
com medo que nunca amanheça

Amigos! Amigos!
antes, agora
ainda não morri
queria avisar-lhes
e informar-lhes
eu vi!







Há noites sem lua
escuras, dunas
ainda mais noturnas

Dias nublados
cinza, tablado
ainda mais calado

Há noites mais frias
vazias, tardias
ainda mais minhas

Dias secos
ecos, esqueletos
me perco

Pássaro que voa só
Moinho sem mó
Dor sem dó

Árvore de rua
Rainha nua
Minha vida, sua

Essa vida que é morte
Poesia que é sorte
Labirinto que é norte

Beleza que é prisão
Choro sem emoção
Grito da multidão

E um sentido
sentido por poucos
chamados de loucos

Que acreditam no perdão
Que amam com emoção
Perdem sem perder a razão

Há noites sem luas
mas nunca e nunca
noites que não possam ser sua

Há choro sem dor
e por mais que seja demais, jamais
Vida sem amor






Era uma vez
e uma vez apenas
era
a era de todas as eras

Era uma vez
e duas
e três
e depois disto tudo
mais uma vez

Mas era apenas
e era uma era
que já não era a vez

O espaço
as fontes de água
e tudo mais que se fez
era reflexo
do que já não era
e que será outra vez

Menos as mentes
que são
e nunca mais serão outra vez

Tudo passa
nossas relíquias
e nossa insensatez

A sabedoria
A pequenez
invertem-se em era após era
e de novo
mais uma vez

O que discordam
O que gostam
com a bruma
se desfez

A vida passageira
a riqueza
a escassez
a beleza
a tristeza
a polidez
Quando se pensa que é, era
e já era
como todos as eras,
como tudo que se faz e se fez

As palavras
e o conhecimento
os desejos
a avidez

Nossas listas infindáveis de tudo
o que existe
o que era uma vez...

A palavra das palavras
que é
antes de tudo o que se fez
Antes das eras
de mim
de vocês

de mim
de vocês
onde tudo que é
nunca era
numa era que nunca se desfez
aonde a palavra nos espera
pra nos tornar uma com ela
pra sempre e de vez