
Corri!
E o que encontrei?
Cordas em mastros
a minha espera
Verdugos postados
imóveis, era após era
Parei!
Como sempre
era tarde demais.
Pendurado
perdi o chão
e perdi muito mais...
Corri novamente
nos últimos segundos
para dentro de mim
e parei frente a frente
ao que procurava
meu fim

Primeiro
veio subindo
em violência
Depois
Com a delicadeza das noviças
desceu
e rasgou minha pele
dilacerou meu tórax
e arrebentou meus ossos
Antes
elevava minh'alma
num frenesi que não notava o tempo
Agora
que as vísceras saltam
e a amargura fecha tudo
nesse cubículo chamado tristeza
cada segundo - dura uma vida
ao ponto que:
cada veia que estoura
cada centímetro de pele que se abre
cada migalha de osso que se desprende
é como uma sinfonia completa
Oh não!
Não me chameis cômico
nem dado ao drama
Maior dor é essa:
Ver rir
quem o punhal empurra
hora-a-hora
contra meu peito

Nos mais abissais poços de esquecimentos
onde moram os mais tristes e insones lamentos
ali guardei ao relento
minha vida, meu coração e todos meus pensamentos
Guardei escondido da luz, no escuro
debaixo de todo escombro, atrás de todos os muros
Resguardado de que alguém os veria
segui meu caminho por outras tantas vias
mostrando ao mundo essa mentira
que eu encenava e chamava de vida
E vivi
ou morri
e enfim
eu te vi
ou fui visto por ti
E nos mais repugnantes lugares
onde vermes se servem com seus manjares
onde idolatras cultuam seus altares
onde escondi também meus olhares
Me achei perdido dentro de mim
fugindo fugidio de ti
Os lugares
lúgubres
de mais espessa
e obscuras trevas
onde a luz não penetra
ali guardei
tudo que me resta
A luz
As trevas
Era dentro de mim
era quem era
quem sempre fui
todo esse poço
o esconderijo
o abismo
o nojo
era de dentro de mim
eu, o próprio esgoto
Nada escondi
estava a céu aberto
exalando por todos os lados
o cheiro podre e fétido
Escondi apenas de mim
Até que te vi
e me vi

Ando perdido, perdido
esquecido....
Sentem mais falta no mundo dos vivos
d'aqueles que estão falecidos
desaparecidos
e dos que deveriam ser esquecidos!
Ando pensante em pêsames pré-ditos
quando na vida fica o dito pelo não-dito
E andam falando que ando aflito
quando na verdade ando tranquilo
Minha jornada aqui nessa terra
não é de todas a mais bela
porque eu sei, não sou dessa esfera
E não me entendem quando dela
me despojo com os olhos naquela
terra-não-terra que me espera
Por isso pareço perdido
daqui, não sei os caminhos
Mas sei que caminho
num caminho estreito entre infernos e limbos
Voltando pra casa
pra tenra morada
da onde nunca quis ter saído
talvez por isso também
pareça perdido
Mas confesso aqui
mais uma vez
daqui sou apenas peregrino.

Eu não matei ninguém!
Eu poderia jurar
se disso tivesse certeza
mas com certeza
eu não posso ter
Quem sabe onde
caiu aquele projétil
atirado para o alto?
Quem sabe
se em um coração já dilacerado
ou em alguém (in)feliz
que na hora e lugar errado
parou, ou olhou para o lado?
--------- Esse tiro para o alto
------------------- palavras como dardos....
-Eu não matei ninguém!-
Mas agora que de novo
morro
poderia jurar que esse
mal agouro
são minhas palavras-balas
em retorno
em meu peito
em estouro
e é por isso que mais sofro

É notória a dor
impressionante a vida
essa surpresa constante
- encontros e despedidas -
a cura que alegra
a ardência da ferida.
Incrível e inescrutável
nossos caminhos
nesta então rua sem saída
São feitos planos
mapas e tantos atalhos
neste chão de idas e voltas
colcha de retalhos
onde me deito, me perco
descanso, me embaralho
E a cada dia
um passo em falso
com fé
me refaço, sou tudo, descalço...
Mais um passo
e não passo
de um cara
que quer parar
mas pede sempre
um cigarro
um abraço
um escarro
e cansado entro no carro
e lá fico... e lá paro