
Há um revolver
recostado em meu peito
e desde sempre
um projétil em meu coração
Há um revolver
encostado em meu peito
e há muito tempo
um projétil em meu coração
Há um revolver
e meu peito
um projétil
e meu coração
Há um revolver
contra meu peito
projéteis invadem
meu coração
Há revólveres
em todos os peitos
e projéteis ao invés
de corações
Meu peito é um revolver
e um projétil meu coração
Atormenta minha cabeça
minha peregrinação
olhos torpes, fatigados
olhando sempre pro chão
Se olho pro céu já é noite
sem estrelas, escuridão
E quando é dia , meu pescoço cansado
revolve de volta pro chão
Quando me deito, me deito de lado
as vezes cansado, as vezes não
me viro pra um lado, me viro pro outro
acabo virado com o rosto pro chão
Ando cansado e um pouco irritado
com essa paisagem sem variação
e temo que ando andando em círculos
seguindo minhas pegadas no chão
Se volto, meus rastros estão embolados
elevando em muito minha confusão
Desisti!
Mudei de estratégia
Cavei uma cova no chão
E morri como um covarde
nessa ousada e corajosa decisão
Melhor que olhar-te, eu que sou barro
é fazer parte de ti, chão
Ria-se de mim
ó Eterno
por me ver fugitivo de Ti
pois quando não quero
mais ser quem sou
ando por onde vou
Ria-se de mim
ó Deus
pelo fato de me ver abalado
pois ando atolado
afogado em meu próprio pecado
e sei
misericórdia queres
não holocausto
mas
não tendo
nem uma, nem outra
vou perecendo
mesmo ao Teu lado
Ria-se de mim
ó Criador!
Pois não sei
que já fui resgatado
da minha própria dor
Não
eu não espero uma mão
que me busque ao cair
Não
não espero
Detesto bajulação
prefiro o escarro
o cuspi, o catarro
Deixo as frases
idiotamente bonitas para
Caio F. Abreu
As músicas
de quem não quer crescer
com Nando Reis
Estou com pés em terra
e a terra está em decadência
constante
PAREM!
Não me chamem de pessimista
nem me deem qualquer outro título
Quando buracos se abrirem
casas ruírem
não houver a quem chamar
quando as vozes se calarem
as águas secarem
e teus filhos te matarem
quando o amor acabar
e tudo quanto antes esperava
morrer
Aí então
teu grito não passará de silêncio
e teu choro
sim teu choro estará para sempre embargado
Não
agora não espero nada
E minto pra mim nesse instante
ao dizer que nada espero
Se ao sair do serviço
tudo que eu queria
era te encontrar em casa
Eu que era uma cara
de muitas palavras
descobri no silêncio
a minha essência
Eu que pensava
gostar de diversão
encontrei na solidão
muitas respostas
Eu que sempre falava
e falava de mim
descobri no outro
a razão de ser
Eu, que de mim
nada mais tenho pra dar
descobri
que posso ser outro
Eu que já não sou
quem aqui divaga
me perdi
e me encontrei em mim
Hoje olhei pra minha mão
sim eu sei
a vejo sempre
mas hoje olhei para ela
Senti o tempo
ele passou por ela
Tenho dedos esguios
unhas sempre por cortar
esses pelos que cresceram
em meus dedos também há pelos
Há também uma pequena queimadura
na verdade uma cicatriz
Ela fica (quase) sempre exposta
se suja
me ajuda
me adoece
se enruga
o tempo passa por ela
e hoje
meus olhos notaram
As manchas hão de aparecer
o sol, sim, ele mesmo
a manchará
As células não se recuperarão
ela notará isso
e meus olhos verão, espero
Minha mão tem veias em alto-relevo
e se elevarão mais
perderá aos poucos os pelos
as unhas, provável que continuem por cortar

